Quando a dor chega mansa, quase sem aviso, entra sem pedir licença e se instala sorrateira nos cantos mais íntimos — não só da casa, mas também da alma, do cotidiano... Vai alongando-se no silêncio entre uma palavra e outra, no olhar que se perde lá muito além, no suspiro que não encontra alívio. É a dor das inquietações internas, das dúvidas que não cessam, das perguntas sem resposta. Ela não grita, mas pesa. E, por isso mesmo, cansa. Mais parece um relógio descompassado, lembrando, a cada segundo, que algo irrecuperável se foi.
Quando a dor vem do outro, de uma palavra dita sem cuidado, de um gesto brusco que atravessa como uma lâmina invisível, sem marcas visíveis na pele, mas que reescreve memórias e altera a forma de se ver e de estar no mundo. São feridas que não sangram, mas insistem em latejar. É o duro aprendizado das relações humanas, tão frágeis e, ao mesmo tempo, tão necessárias. Aquela que nos lembra que viver com o outro é, também, aprender a suportar imperfeições — as nossas e as alheias.
Quando a dor é do corpo, ganha contornos físicos impossíveis de ignorar e nos reduz ao essencial. Exames mostram números, médicos nomeiam sintomas, mas há uma parte silenciosa — aquela que aperta por dentro — que nenhum diagnóstico consegue alcançar por completo. É uma dor que nos coloca frente à nossa própria vulnerabilidade, lembrando-nos de que somos finitos, limitados, humanos. E, nesse reconhecimento, muitas vezes nasce também uma estranha forma de lucidez.
Quando a dor é do sonho desfeito, interrompido, das expectativas que não se cumpriram — o vazio do que poderia ter sido. Uma dor que não se mede, mas se sente e que, por vezes, nos transforma silenciosamente.
Quando a dor nasce da guerra, ela deixa de ser apenas individual e passa a ser coletiva, devastadora. É o choro das crianças, o desespero das mães, o olhar vazio de quem perdeu tudo. É a dor que destrói lares, histórias, identidades. Uma dor que ecoa para além dos lugares arrasados e se infiltra na memória da humanidade, lembrando-nos do quanto ainda somos capazes de ferir uns aos outros.
Quando a dor é a perda de alguém amado, torna-se quase insuportável. É o vazio da presença que não volta o eco de uma voz que se calou. É o luto que aperta o peito e desorganiza o mundo. Como a Virgem Maria, ao retirar seu Filho da Cruz, carregando nos braços não apenas um corpo, mas toda a dor do mundo.
Mas, ainda que a dor seja intransferível, a travessia compartilhada a torna mais leve. Quando alguém nos olha nos olhos com verdade, quando escuta sem pressa, quando respeita o silêncio, algo dentro de nós começa a se reorganizar. O calor de um abraço sincero pode não apagar a dor, mas a acolhe; uma presença sensível não resolve tudo, mas sustenta. Amenizar a dor é, antes de tudo, um gesto de humanidade: estar junto, dividir o peso, oferecer calor onde há frio. Porque, se não podemos sentir a dor do outro em sua totalidade, podemos, ao menos, impedir que ele a carregue sozinho — e isso, por si só, já é uma forma poderosa de cura.
Na dor, escolher não ir embora é a verdadeira Páscoa… é o verdadeiro Pessach.
(Esse texto é para meu pai Pedro, falecido há 27 anos, num 1º de abril, de Semana Santa)