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Opinião

Não. Os filhos não são do mundo

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Lucia Pagliosa
Por Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa – Professora da URI Erechim – Doutora em Linguística Aplicada – Membro da Academia Erechinense de Letras - AEL
Foto Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa

Dia desses ouvi, novamente, a frase que tantas vezes se repete como consolo:

— Não sofra. Os filhos são do mundo.

Sorri. Por educação. Porque há frases que a gente escuta tantas vezes que parece até indelicado discordar delas. Mas discordei.

Não. Os filhos não são do mundo. Podem viver no mundo. Podem atravessar oceanos, escolher outras cidades, construir outras casas, amar outras pessoas, fazer escolhas que nem sempre compreenderemos. Podem até se afastar de nós. Mas há uma coisa que o mundo jamais conseguirá: apagar o lugar que ocuparam em nossa história.

O mundo não os esperou nove meses. Não passou noites em claro tentando descobrir se aquele choro era fome, cólica ou dor. Não mediu febres com a mão na testa. Não reconheceu o primeiro sorriso — mesmo que fosse apenas um espasmo —, não guardou o primeiro dente, não fotografou o primeiro passo. Não sentiu o coração apertar quando, pela primeira vez, eles atravessaram sozinhos o portão da escola ou ralaram o joelho no parquinho.

O mundo recebe os filhos quando eles crescem. Os pais os recebem quando ainda são apenas promessa, latência, desejo.

É verdade: filhos não são propriedade. Ninguém possui um filho. Amor não dá escritura, não estabelece domínio, não confere posse. Talvez seja justamente aí que a frase de Khalil Gibran encontre sua verdade: “Vossos filhos não são vossos filhos.” Não são nossos para serem presos. Mas são nossos para sempre no território invisível do afeto. Pertencer não é possuir.

Um filho pode morar do outro lado do planeta e continuar sentado à mesa da memória. Pode não voltar no Natal, mas aparecer na lasanha que fazemos exatamente como ele gostava. Pode ter deixado o quarto há muitos anos e, ainda assim, permanecer em algum objeto que ali adormeceu: numa fotografia, numa boneca de cabelo amarelo, nos bilhetinhos dos amores da adolescência, na cadeira de balanço – presente da madrinha – muitas vezes disputada pelos netos.

E há uma verdade ainda mais difícil de dizer: nem todos os filhos seguem os caminhos que sonhamos para eles. Alguns se perdem. Alguns se deixam vencer pelos vícios. Outros entram no crime, fazem escolhas que ferem a família, decepcionam, rompem expectativas e obrigam os pais a enfrentar perguntas para as quais não existe resposta. Há filhos que se tornam uma espécie de dor permanente.

Mas nem mesmo a decepção consegue desfazer a maternidade ou a paternidade. Podemos reprovar seus atos. Podemos estabelecer limites. Podemos até precisar nos afastar para não sermos destruídos por suas escolhas. Mas, em algum lugar profundo e indomável, continuarão sendo nossos filhos.

Talvez essa seja a parte mais difícil do amor: ele não desaparece quando deixa de haver orgulho.

Minhas filhas hoje têm suas próprias casas, trabalhos, responsabilidades, escolhas. E eu quero que seja assim. Educar é, também, preparar alguém para não precisar de nós. Filhos precisam partir para descobrir quem são.

Só que, quando partem, não levam consigo apenas a própria vida. Levam pedaços da nossa. A distância muda o endereço — já não será lá no topo do morro, da Boa Vista de ontem, onde se avistam vales e serranias. Pode ser apenas a descida de um morro, outra cidade ou além de todos os mares. Mas a distância não muda a origem.

O butiazeiro da nossa casa não perde a história do seu fruto porque ele caiu longe do tronco. Pode germinar em outra terra, crescer sob outro céu, tornar-se outra árvore. Mas nunca produzirá maçãs. Carregará, de qualquer forma, a marca invisível de onde veio.

Assim são minhas filhas. Assim são todos os filhos.

O mundo pode receber seus passos. Pode lhes oferecer estradas, profissões, amores, países e destinos. Pode até lhes ensinar coisas que nós jamais conseguiríamos ensinar. Mas existem territórios aos quais eles continuarão pertencendo: à nossa memória, à nossa história, ao nosso amor.

Por isso, quando alguém me disser que os filhos são do mundo, talvez eu já não sorria apenas por educação.

Direi, com serenidade:

— Sim. Eles são do mundo para viver. Mas são nossos para amar.

E isso não é posse. É permanência.

Porque um filho pode deixar a nossa casa, mudar de cidade, até morar perto de conflitos, construir uma vida inteira longe de nós. Pode até se tornar alguém que nem em sonhos imaginávamos. Mas há uma coisa da qual nenhum filho jamais consegue partir: do lugar onde foi amado pela primeira vez.

E talvez seja esse o segredo que os anos nos ensinam, quando a casa fica silenciosa e os filhos já não estão à mesa: eles podem pertencer ao mundo. Mas nós, pais, continuamos pertencendo a eles.

Para sempre.

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