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Opinião

Chegar em casa

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Existe uma diferença enorme entre entrar numa casa e conseguir habitar uma casa. Há lugares onde tudo funciona, exceto para quem vive neles. Quem olha de fora não vê problema, mas quem precisa viver ali sente todo aquele peso. Até tenta, se esforça, mas a vida simplesmente não funciona.

No começo, aprende a desviar da mesa no corredor, fazer um malabarismo para passar na porta que abre do lado contrário e dorme torto porque a cama nunca coube ali. O problema passa de falta de jeito em lidar com aquilo, até cansar e fingir que é tudo normal. É curioso como o ser humano consegue se adaptar até nas situações mais absurdas e caóticas. Assim, os anos passam, e quem mora ali grita por socorro enquanto pede desculpas por existir. Normalmente, ninguém escuta nem um, nem outro.

Quem olha de fora pode ver uma casa bonita, sem nada a alterar. A casa dos sonhos, aquela que muitos dariam a vida para ter. Chega um momento em que a pessoa apenas sorri, porque cansou de explicar o que ninguém quer ver. É bonito por fora, mas impossível por dentro. E fica cada vez mais evidente que as pessoas gostam de fachadas, afinal, fachadas dão menos trabalho do que plantas baixas. Lá de vez em quando, alguém se permite tentar entrar na casa, mas para no primeiro obstáculo, dá meia-volta e só sabe dizer que, ao menos, dá para dormir, mesmo todo torto deitado no chão frio porque a cama não cabe ali.

Ao longo da vida, conhecemos pessoas que estão sempre reformando, mas não para si, reformam para agradar aos olhos da vizinhança. Pintam a fachada, trocam as cortinas, plantam novas flores, deixam a grama bem verdinha e, por fora, estão sempre sorrindo, enquanto por dentro, continuam sem conseguir encontrar o banheiro durante a madrugada.

Enquanto algumas vivem de fachada em fachada, outras reúnem forças que até então desconheciam em si mesmas e, um belo dia, criam coragem e resolvem mudar. E tudo isso sob os olhares escandalizados e reprovadores de quem nunca encarou a vida de frente. Então, quebram paredes, fazem barulho, levantam poeira, mudam portas, janelas e arrastam móveis tão pesados quanto as correntes que as prendiam. A intenção não é necessariamente construir algo novo, mas retirar, uma a uma, as paredes que tapavam toda a luz.

Uma reforma dessas demanda dinheiro, lágrimas, inúmeras explicações e uma sensação de paz e liberdade que não tem preço. É de um valor inestimável, pois há uma diferença enorme entre habitar e pertencer. Esse tipo de reforma não é fácil e só acontece quando, de fato, quem habita aquele lugar entende que uma casa não serve para impressionar quem passa na calçada, mas para que quem vive nela consiga, enfim, habitá-la. Talvez essa seja a parte mais difícil de entender para quem observa de fora, que uma reforma dessas não muda essências, apenas ajusta o ambiente para que se pareça com quem sempre morou nele e, como num passe de mágica, quem vive ali sabe que houve encontro.

No mais, o mundo continua igualzinho, o céu azul, os pássaros cantando, os carros passando pelas avenidas, pessoas apressadas por todos os lados. Mas, pela primeira vez, alguém respira e sente que está, finalmente, em casa e entende que o conceito de liberdade não é exatamente sair voando por aí, mas o milagre de caber em si. E então, no mais absoluto silêncio e diante de qualquer espelho, quem entra pode finalmente dizer:

— Agora, sim. Cheguei em casa!

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