A interseção entre o avanço tecnológico e a formação educacional no Brasil revela dinâmicas de dependência estrutural que reconfiguram o processo de ensino- aprendizagem nas duas últimas décadas com mais intensidade. Este fenômeno se manifesta inicialmente por meio do colonialismo digital, processo no qual corporações transnacionais de tecnologia detêm o monopólio das infraestruturas de dados e softwares educacionais utilizados em solo nacional. A adoção dessas ferramentas transfere a soberania sobre os métodos pedagógicos, gestão escolar e a própria governança dos dados de estudantes brasileiros para centros de capital internacional, estabelecendo uma relação de subordinação artística, cultural, cultural e técnica.
Subjacente a essa estrutura, opera o colonialismo da atenção. Os ecossistemas digitais são projetados com base em técnicas neurocomportamentais que visam a maximizar o tempo de engajamento dos usuários. Ao capturar a atenção de forma intermitente, os algoritmos fragmentam a capacidade de concentração prolongada, um requisito fundamental para a alfabetização, a consolidação do pensamento abstrato e a convivência coletiva. O esforço cognitivo das crianças e adolescente é, assim, subordinado a métricas de retenção de tela, competindo diretamente com o tempo dedicado às atividades escolares e de socialização física. Ou seja, brincar no parque já não é de interesse de milhares de crianças brasileiras.
Essa lógica de exploração sistemática atinge seu ápice no conceito de human fracking (fraturamento humano). De forma análoga à extração de recursos fósseis, as plataformas realizam uma extração predatória de dados comportamentais, biométricos e emocionais dos menores. A infância torna-se uma fronteira de extração contínua, onde cada interação gera ‘insumos’ para o aperfeiçoamento de perfis preditivos e publicitários. Essa vigilância e indução constantes estreitam o repertório de escolhas e o desenvolvimento da autonomia intelectual.
Os impactos diretos desse modelo na ação nas crianças e adolescentes no processo de aprendizagem são mensuráveis e complexos. Do digital ao real, o sistema educacional do país, marcado por disparidades socioeconômicas e desigualdades educacionais, enfrenta o desafio de integrar estudantes cujas funções executivas - como memória de trabalho e controle inibitório - encontram-se alteradas pela superestimulação digital. A substituição de metodologias tradicionais de mediação pedagógica por telas sem o devido suporte crítico resulta em déficits de interpretação textual e raciocínio lógico. O aprendizado é comprometido pela superficialidade do consumo de informações, consolidando uma barreira invisível, mas estrutural, ao desenvolvimento pleno das capacidades cognitivas na infância e demais fases.
Assim, é possível apontar que os reflexos da substituição da mediação pedagógica por telas e da perda de foco analítico são constatadas nas principais avaliações de desempenho e dentre elas temos o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes/PISA e o Sistema de Avaliação da Educação Básica/SAEB. Tomadas as devidas interpretações que os números mostram, é preciso assinalar que os dados mais recentes apontam que cerca de 50% dos estudantes brasileiros de 15 anos não atingem o nível básico de proficiência em leitura. Em matemática (raciocínio lógico), o índice de insuficiência chega a 73%. Já o relatório da OCDE destaca que o uso excessivo de celulares para lazer em sala de aula está diretamente associado à perda de concentração e a notas significativamente menores. O SAEB (2025) apresenta indicadores nacionais que a alfabetização na idade certa (final do 2º ano do Ensino Fundamental) sofreu uma queda acentuada. Mais de 56% das crianças nessa etapa foram classificadas como não alfabetizadas, apresentando severas dificuldades em decodificar textos simples e interpretar enunciados. Neste contexto, torna-se ímpar a cada dia repensar a “escola desde o digital e o real”. Sem encantos e superficialidades a educação brasileira e a escola possuem um compromisso além de preocupar-se tão somente em ‘acompanhar as novidades mundiais em prol da plataformização do pensamento’.
*Docente adjunta na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Unidade Universitária de Erechim e Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas/PPGICH UFFS-Campus de Erechim