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Saúde

Precisamos cuidar da visão das crianças de uma forma diferente do que a do adulto

Oftalmopediatra explica a importância das consultas preventivas e do diagnóstico precoce para o desenvolvimento visual pleno na infância

teste
Dra. Daniele Bica Madalozzo em entrevista à TV Bom Dia
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Amanda Gatti

Dor de cabeça frequente, dificuldade para ler, aproximação excessiva de telas e baixo rendimento escolar podem estar relacionados a problemas de visão na infância. Nem sempre, porém, a criança apresenta sintomas perceptíveis ou consegue explicar que não está enxergando bem. Por isso, a avaliação oftalmológica preventiva é importante desde os primeiros anos de vida, período em que a visão ainda está em desenvolvimento.

Segundo a oftalmopediatra do Instituto de Olhos Santa Luzia, Dra. Daniele Bica Madalozzo, a visão participa diretamente da aprendizagem, das brincadeiras e da interação com outras pessoas. “A criança não nasce sabendo enxergar. Ela precisa que a luz chegue de forma nítida na retina para que ela vá desenvolvendo a visão corretamente”, explica.

Alterações não identificadas nessa fase podem comprometer a capacidade visual ao longo da vida. A especialista recomenda que a primeira consulta oftalmológica seja realizada entre os seis meses e um ano de idade, mesmo quando não há queixas aparentes. Uma segunda avaliação, por volta dos dois anos e meio a três anos, também é importante para verificar o desenvolvimento da visão.

Sinais podem passar despercebidos

A criança nem sempre percebe que tem dificuldade para enxergar, pois não conhece outra referência de visão além daquela que experimenta no dia a dia. Isso faz com que alguns problemas permaneçam sem diagnóstico, mesmo quando há necessidade de correção com óculos. “Criança não sabe como é enxergar bem. Aquilo ali para ela, o que ela enxerga, para ela é como ela sempre se viu, então parece normal e eles não sabem se queixar direito das coisas”, afirma Daniele.

Entre os sinais que merecem atenção estão dores de cabeça persistentes, principalmente após atividades de leitura ou tarefas escolares, piscar excessivamente, forçar os olhos, aproximar-se muito da televisão ou do celular e demonstrar pouco interesse pela leitura durante a alfabetização.

A aproximação de telas, isoladamente, não confirma a existência de um problema ocular, mas pode indicar uma dificuldade que precisa ser investigada. A médica orienta que os pais não esperem o aparecimento de sintomas para procurar atendimento.

O desempenho escolar também pode fornecer pistas. Dificuldade para copiar informações do quadro, problemas de concentração e desinteresse pelas atividades podem estar associados a alterações visuais, embora também tenham outras causas. “Uma pessoa que não enxerga direito no quadro, uma pessoa que não consegue ver direito as letras no caderno, é claro que ela vai estar mais desinteressada, é claro que ela vai ter mais dificuldades e não vai ter o mesmo rendimento”, observa a oftalmopediatra.

A avaliação da visão deve fazer parte da investigação de crianças com dificuldades de aprendizagem ou suspeita de transtornos do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Isso não significa que toda dificuldade escolar seja provocada por um problema ocular. A identificação da causa pode exigir acompanhamento conjunto com pediatras, educadores e outros profissionais.

Além de verificar a necessidade de óculos, o exame pode identificar alterações na coordenação dos olhos, como problemas de convergência, que dificultam o trabalho conjunto dos dois olhos durante a leitura, e casos de estrabismo.

Teste do olhinho não substitui consulta

Realizado ainda na maternidade, o teste do olhinho permite identificar alterações importantes, como catarata congênita, alterações da córnea e sinais sugestivos de retinoblastoma, um tumor raro da retina que pode atingir bebês e crianças pequenas.

O exame, entretanto, não detecta todos os problemas de visão. Miopia, hipermetropia, astigmatismo, estrabismo e ambliopia podem passar despercebidos nessa avaliação inicial.

A ambliopia, conhecida popularmente como olho preguiçoso, ocorre quando a visão de um dos olhos não se desenvolve adequadamente. Isso pode acontecer, por exemplo, quando há estrabismo ou diferença significativa de grau entre os olhos. Como o outro olho pode enxergar bem, a criança nem sempre demonstra dificuldade, o que torna o diagnóstico mais difícil sem um exame especializado.

A detecção precoce é importante porque existe um período de desenvolvimento visual em que o tratamento apresenta melhores resultados. “Quanto mais cedo a gente detecta essas alterações e começa a tratar, tem muito melhores resultados do que se descobrir isso lá pelos 6 ou 7 anos”, explica Daniele.

O tratamento depende de cada caso e pode incluir óculos e, na ambliopia, o uso de tampão no olho com melhor visão, para estimular o desenvolvimento visual do olho afetado. A médica esclarece que o tampão não corrige diretamente o estrabismo: sua finalidade é favorecer o uso do olho cuja visão precisa ser desenvolvida.

Uso de telas e risco de miopia

O tempo prolongado em atividades de perto, especialmente com celulares e tablets, está associado ao aumento da ocorrência de miopia em crianças e adolescentes. O risco também depende de fatores genéticos, como o histórico familiar.

De acordo com a especialista, quando um dos pais tem miopia, a criança apresenta maior probabilidade de desenvolver o problema. Quando ambos são míopes, esse risco aumenta.

A orientação é evitar o uso excessivo de telas e incentivar atividades ao ar livre. “A gente recomenda pelo menos duas horas de atividades ao ar livre por dia, como isso sendo um protetor também da miopia”, afirma.

A miopia ocorre quando a visão de longe fica embaçada. Como o olho continua crescendo durante a infância e a adolescência, o acompanhamento oftalmológico permite avaliar mudanças no grau e orientar os cuidados necessários.

Alterações que exigem atendimento rápido

Alguns sinais não devem aguardar uma consulta de rotina. Entre eles estão a perda súbita da visão, o aparecimento repentino de estrabismo acompanhado de visão dupla, traumas oculares e alterações no reflexo das pupilas.

Um reflexo esbranquiçado em um dos olhos, percebido em fotografias ou a olho nu, merece avaliação oftalmológica urgente, pois pode estar relacionado a doenças graves, incluindo o retinoblastoma.

Dores de cabeça intensas ou incapacitantes também precisam de investigação, especialmente quando acompanhadas de outros sintomas. Durante o exame, o oftalmologista pode identificar alterações no nervo óptico que indiquem a necessidade de avaliar condições neurológicas, como o aumento da pressão intracraniana.

Para Daniele, o acompanhamento preventivo é necessário mesmo quando os pais não percebem nenhuma alteração. “Essas duas consultas mesmo que você não perceba nada no seu filho, são muito importantes de fazer, para que esse sentido que é a visão seja aproveitado plenamente durante toda a infância e que a criança possa ir se desenvolvendo muito bem com relação a todas as áreas”, conclui.

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