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Expressão Plural

O Gita e a ação política (II)

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Arjuna continua lá, no campo de batalha de Kurukshetra, onde o deixamos na semana passada. Como Hamlet, hesita diante da necessidade de agir; como o Bartleby de Melville, talvez preferisse não fazê-lo; como Lênin, indaga o que fazer. Mas Krishna, seu cocheiro e conselheiro, tem outras ideias. É desse encontro, narrado no Bhagavad Gita, que nasce uma das mais profícuas reflexões sobre a ação de que temos notícia. E, como prometido, vamos tentar descobrir o que tudo isso tem a ver com a política — essa outra atividade humana em que agir e não agir podem ser igualmente problemáticos.

Havíamos feito a seguinte pergunta: o que significa agir politicamente sem transformar a política em simples disputa pelo resultado? Situemo-nos bem pertinho dela, está bem, caro leitor/a? E concentremo-nos nesta ideia-força: o Gita não propõe uma renúncia à ação, mas uma transformação da maneira de agir. Iremos explorar as consequências, e inclusive as contradições, dessa proposição quando a transportamos para a política. Uma “tese” possível: o Gita não nos ensina a agir sem considerar as consequências, mas a agir sem nos tornarmos prisioneiros dos resultados. Podemos, a partir daí, ensaiar uma passagem dessa ética da ação, individual, para o terreno da política (lembrei de Clausewitz: a guerra é a continuação da política por outros meios; e de Foucault: a política é a guerra continuada por outros meios). É preciso, então, que façamos dois movimentos: compreender a proposta de Krishna, e, depois, interrogá-lo politicamente.

Teríamos dois pontos com os quais é necessário lidar. O primeiro é que, para Krishna, a inação absoluta não constitui uma saída. “Ninguém permanece sequer um instante sem agir, pois todos são levados à ação pelas qualidades da natureza.” O argumento é mais profundo do que simplesmente dizer que precisamos fazer alguma coisa. Não agir também nos situa no mundo e pode produzir consequências. Arjuna acredita que pode escapar ao problema moral recusando-se a combater; Krishna questiona essa possibilidade. Aqui, a ponte política é evidente: abster-se, silenciar, omitir-se, retirar-se de um conflito — nada disso é necessariamente neutro. Mas mantenhamos a atenção, caro leitor/a: acho que Krishna não está afirmando que toda recusa é moralmente errada. A questão é saber se a recusa realmente nos liberta da responsabilidade.

O segundo ponto (o centro filosófico do livro, talvez) é o tal “agir sem apego aos frutos da ação”. Este ponto é especialmente “tricky”. Estamos existencialmente, culturalmente, habituados a fazer coisas em razão de determinados resultados, não é mesmo? “Tens direito à ação, mas não aos seus frutos”, diz, porém, Krishna a Arjuna, numa das passagens mais conhecidas da obra. A formulação, contudo, precisa ser compreendida em seu contexto: Krishna não está recomendando resignação, indiferença, irresponsabilidade ou desprezo pelos resultados. Ele está distinguindo a ação da pretensão de controlar e possuir seus frutos. Na política, essa distinção é especialmente provocativa. Uma pessoa pode defender uma causa justa e perder uma eleição. Pode trabalhar durante anos por uma transformação social que não chegará a testemunhar – plantar maçãs que não irá colher. Pode agir corretamente e fracassar. Agora, pense: o fracasso do resultado significa necessariamente o fracasso da ação? E, inversamente, vencer uma eleição ou conquistar o poder torna uma ação automaticamente justa? Desde quando vencer se tornou sinônimo de ter razão? Quer dizer: o lugar em que tu estás, em que tu queres conscientemente estar, o lugar que tu escolhes ocupar e continuar ocupando, não depende do resultado da ação – nem mesmo da ação política.

O espaço da coluna terminou, mas a história do Gita não termina no campo de batalha de Kurukshetra. Muitos séculos depois, Gandhi encontraria nesse texto, nascido de uma guerra, justamente (ironicamente?) uma inspiração para sua resistência não violenta. Ambedkar, por sua vez, questionaria: quem determina o que devemos fazer? E a quem serve nosso dever? Existem ainda outras conversas possíveis, com o estoicismo, Hannah Arendt e a política contemporânea. Porque agir sem apego aos resultados não significa agir sem responsabilidade pelas consequências. Nosso velho Arjuna, ‘tadinho, terá de esperar mais uma semana no campo de batalha com Krishna (que tenham um chimarrão, ao menos). Enquanto o tempo histórico avança dois milênios, o tempo narrativo permanece suspenso. Voltaremos a ele na terceira e última parte!

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