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El Niño: Por que o Sul está enfrentando uma sequência de temporais severos

Granizo, vendavais e tornados chamam atenção no Rio Grande do Sul; especialistas explicam que fenômenos são resultado da combinação de diferentes condições atmosféricas

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Por Da redação
Foto Rodrigo Finardi

 Quem acompanha o tempo no Rio Grande do Sul tem percebido uma sequência de episódios que impressionam pela intensidade. Quedas de granizo, vendavais, chuvas intensas em curtos períodos e registros de tornados têm provocado danos em diferentes regiões do Estado. Diante desse cenário, surge uma pergunta natural: estamos diante dos efeitos do El Niño ou de uma mudança no comportamento do clima?

 A resposta não está em um único fenômeno. O cenário atual resulta da combinação de diferentes condições atmosféricas. E há um componente importante nessa equação: o El Niño 2026/2027, que já está configurado no Oceano Pacífico Equatorial e tende a permanecer atuando pelo menos até o início de 2027.

 O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) explica que o El Niño modifica a circulação atmosférica e, no Sul do Brasil, tende a favorecer o transporte de umidade e o aumento da frequência e do volume das precipitações. O fenômeno, entretanto, não significa que todos os temporais, granizos ou tornados sejam diretamente provocados por ele.

Uma atmosfera carregada

 A explicação para os temporais severos passa pelas condições existentes na atmosfera no momento da formação das tempestades. Em setembro, o INMET identificou uma sequência de episódios de tempo severo no Centro-Sul do Brasil, incluindo chuva intensa em curtos intervalos, grande incidência de raios, vendavais, microexplosões, tornados e granizo.

 Segundo o instituto, uma das características do período foi a presença de uma atmosfera extremamente quente, úmida e instável, associada a uma circulação de ventos em altitude que favoreceu o desenvolvimento de tempestades mais organizadas e intensas.

 É justamente quando diferentes ingredientes atmosféricos se encontram que uma tempestade comum pode evoluir para um sistema capaz de produzir granizo de grande tamanho, rajadas destrutivas ou, em determinadas circunstâncias, um tornado.

O papel do El Niño

 O El Niño funciona como um fenômeno de grande escala. O aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial modifica padrões da circulação atmosférica e pode alterar a distribuição de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.

Para o Rio Grande do Sul, o sinal mais conhecido é a tendência de maior disponibilidade de umidade e de chuvas acima da média em determinados períodos.

 O Cemaden, em conjunto com INMET, INPE, ANA, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil, vem monitorando o episódio 2026/2027. As projeções indicam elevada probabilidade de permanência do fenômeno durante a primavera e o verão, período em que também cresce a preocupação com eventos meteorológicos severos.

 Uma nota técnica do Cemaden alerta que o El Niño, isoladamente, não provoca desastres. O fenômeno pode, entretanto, aumentar a probabilidade de ocorrência de eventos extremos, entre eles chuvas intensas, tempestades, inundações e enxurradas, especialmente em áreas vulneráveis.

E os tornados?

 É importante desfazer uma impressão que ganhou força diante dos episódios recentes: tornados não são fenômenos novos no Rio Grande do Sul ou no Brasil.

 O que chama atenção é a ocorrência de episódios severos e os impactos provocados por eles. Tornados são fenômenos meteorológicos associados a tempestades muito intensas e dependem de uma combinação específica de fatores, entre eles instabilidade atmosférica, umidade e mudanças na velocidade e direção dos ventos com a altitude.

 Por isso, não é cientificamente adequado afirmar que um tornado específico aconteceu “por causa do El Niño”. O fenômeno pode modificar o ambiente atmosférico de grande escala, mas a formação de cada tempestade severa depende das condições meteorológicas presentes naquele momento.

E as mudanças climáticas?

 A discussão também precisa considerar outro componente: o aquecimento do planeta. Mudanças climáticas não podem ser utilizadas para explicar isoladamente cada ocorrência de granizo ou tornado. Esses eventos são determinados por condições meteorológicas específicas e de curta duração.

 Por outro lado, o aumento das temperaturas pode modificar o ambiente em que as tempestades se desenvolvem, especialmente pela maior disponibilidade de vapor d'água na atmosfera. Isso faz com que pesquisadores acompanhem com atenção a relação entre aquecimento global, extremos de precipitação e tempestades severas. Assim, para entender o momento atual, é mais adequado falar em combinação de fatores do que procurar uma única causa.

O que esperar da primavera e do verão?

 O cenário exige atenção. Os órgãos de monitoramento climático indicam que o El Niño deverá continuar influenciando o clima durante a primavera e o verão de 2026/2027. O Cemaden aponta elevada probabilidade de um episódio muito forte durante esse período.

 Isso não significa que haverá temporais severos todos os dias ou que determinado município necessariamente será atingido. Previsões climáticas trabalham com tendências para períodos mais longos, enquanto a ocorrência de um tornado, granizo ou vendaval depende de condições que precisam ser avaliadas em escalas de horas ou dias. Para o Rio Grande do Sul, portanto, a palavra de ordem é monitoramento.

 A população deve acompanhar os avisos meteorológicos e as orientações da Defesa Civil, principalmente nos dias em que houver previsão de tempestades. Em episódios recentes, os próprios órgãos estaduais já alertaram para a possibilidade de chuva intensa, granizo, ventos fortes e até tornados em determinadas áreas.

Um novo olhar sobre o tempo

 Mais do que perguntar se “o clima mudou” ou se “é culpa do El Niño”, os episódios recentes mostram como o comportamento da atmosfera pode reunir, em poucas horas, condições capazes de produzir fenômenos extremos.

 Para o Rio Grande do Sul, que já enfrentou nos últimos anos episódios meteorológicos de grande impacto, compreender essas mudanças e acompanhar os sistemas de previsão passa a ser também uma questão de prevenção.

 O El Niño é uma peça importante desse cenário. Mas os temporais que chegam ao chão são resultado de uma atmosfera muito mais complexa, e é justamente essa combinação de calor, umidade, instabilidade e circulação dos ventos que precisa ser observada para entender o que acontece sobre nossas cabeças.

Legenda: Temporais estão mais fortes e mais frequentes no Alto Uruguai

Foto: Rodrigo Finardi

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