Nos últimos dias, o Rio Grande do Sul respirou com mais afinco a cultura gaúcha. O mês de setembro tem esse poder, é tempo de tirar a pilcha do armário e desfilar o orgulho de ser gaúcho pelas ruas e avenidas do pago. Além de ser o mês do gaúcho, setembro chama as pessoas para o cuidado com a saúde mental e, neste dia 20, ouvindo algumas músicas tradicionalistas, uma das que escutei, em dado momento dizia: “Quem sou eu sem meu cavalo? O que será dele sem mim? Talvez dois seres perdidos a vagar pelo capim”. Isso me trouxe algumas reflexões, pois, para mim, é uma canção que vai além do universo campeiro e da relação entre o homem e seu cavalo.
Afinal, quem somos nós sem alguém ao nosso lado? É impossível atravessar a vida sozinho e é um peso que ninguém deveria precisar carregar sem companhia. A vida nos cobra e, muito, todos os dias. Há momentos em que o trabalho pesa, a família preocupa, as contas apertam, os relacionamentos se desgastam, os planos não acontecem e aquilo que parecia pequeno vai se acumulando até ficar grande demais para suportar sozinho. Precisamos ser fortes, produzir, dar conta de tudo e seguir em frente e, sem pedir ajuda para não demonstrar fraqueza.
E, às vezes, tudo o que uma pessoa precisa não é de uma solução ou de um sermão, apenas de alguém que sente ao lado, que ofereça um ombro amigo, que abrace sem demora. Alguém que tenha tempo para verdadeiramente escutar, para acolher sem julgar, para não colocar mais lenha na fogueira e para não diminuir a dor. Existe uma diferença gritante entre estar perto e estar presente. Algumas pessoas já têm conselhos prontos na ponta da língua, ouvem e falam como se estivessem em um tribunal. Ainda há aqueles que, como se diz, colocam a pá de cal, com ameaças baratas e uma alienação do que realmente acontece. E há aquelas que simplesmente dizem: “Estou aqui”. Duas palavrinhas com um significado imenso, um acolhimento afetuoso e um abraço sem braços.
Na música e na vida, o cavalo não é propriedade, é um ser que precisa de respeito e cuidado para que a relação entre humano e animal funcione. Um parceiro a gente não prende à força, um amigo de verdade não te segura pela rédea, ele caminha ao teu lado. Uma relação de parceria, seja de amizade, seja de casal, não tem posse ou controle, tampouco uma cobrança permanente. Esse tipo de relação é confiança pura ou então ela não existe.
Ter uma parceria dessas na vida é artigo de luxo. Ter um lugar onde você pode chegar com a alma rasgada e desabafar sem medo de ouvir que é frescura, que sempre tem alguém pior ou de ser chamado de fraco é um privilégio. E como é bom, naqueles momentos de pressão, quando parece que estamos em um beco sem saída, encontrar alguém disposto a oferecer um ombro, e não uma resposta pronta e mais cobranças.
Para além de uma relação entre animal e humano, o cavalo tem uma simbologia muito poderosa entre nós, gaúchos. Ele não é só mais um animal no campo, é parte da história, da cultura, está nas nossas memórias afetivas, mesmo que nunca tenhamos sido tutores de cavalo algum. Particularmente neste mês de setembro, em que comemoramos nossas raízes e lembramos, dia a dia, a importância do cuidado com a saúde mental, essa história entre homem e cavalo deve perpassar os outros meses, para que jamais esqueçamos do compromisso de não deixar sozinho quem caminha conosco. E falar sobre saúde mental é cada vez mais necessário.
Quantas vezes você já perguntou verdadeiramente para alguém: “Como você está?”. E, mais que isso, quantas vezes você teve disposição para ouvir sem julgar, sem resposta pronta, sem contar o tempo do relógio e sem minimizar a dor do outro? A coisa mais humana que você pode fazer por alguém, pode ser também a mais difícil, acolher e honrar os parceiros de caminhada, principalmente diante das tempestades, lembrando ao outro que, mesmo depois de uma longa cavalgada, sempre pode existir um lugar seguro para apeiar.