A tradição franciscana de educação, que atravessou a história ocidental e chegou às escolas contemporâneas na forma de um projeto pedagógico, responde sem hesitar que o ato de educar ocorre no encontro consigo mesmo, com o outro e com o mundo. E todo encontro planta a esperança. Compreender o jeito franciscano de educar exige sistematizá-lo a partir de princípios que orientam a sua práxis pedagógica e evangelizadora.
O primeiro princípio dessa sistematização está no encontro sobre o conteúdo. O conteúdo se converte em formação quando mediado por um vínculo. A pedagogia franciscana entende o espaço educacional (sala de aula, administrativo, recepção, laboratórios, entre outros ambientes) como espaço de reciprocidade: quem ensina aprende ao ensinar, quem aprende ensina ao aprender. O patrono da educação brasileira, Paulo Freire, formulou essa concepção a partir da ideia de que “ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os seres humanos se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 1987). É uma tese que dialoga diretamente com o ser franciscano, no sentido de que o conhecimento nasce na roda de conversa, na escuta, na coerência entre o que se vive e o que se ensina. Também esta tese dialoga com as dimensões franciscanas de cosmovisão e de cosmopercepção.
O conceito de cosmovisão diz respeito ao mundo enquanto ideia, um sistema de conceitos, categorias e princípios articulados racionalmente para explicar e ordenar a realidade. É o mundo pensado, compreendido, sistematizado em doutrina. O conceito de cosmopercepção diz respeito ao mundo enquanto vivência, uma experiência sensível e afetiva de habitá-lo, na qual o sujeito se deixa tocar e transformar por ele até a plenitude do amor. Em síntese, enquanto a cosmovisão organiza o real pela via do intelecto, a cosmopercepção o acolhe pela via do corpo, do afeto e do encontro, sendo que o jeito franciscano de educar se inscreve no ensino, aprendizagem e evangelização com congruência no equilíbrio entre o desenvolvimento gnosiológico e humano, compreendido na educação integral.
O segundo princípio é o reconhecimento do outro como sujeito. A reflexão contemporânea do filósofo Byung-Chul Han oferece uma chave analítica preciosa. Han denuncia que as sociedades atuais tendem a produzir aquilo que chama de complexo do igual. Um mundo saturado de si mesmo, incapaz de suportar a diferença e possibilitar que a transformação aconteça por ela (HAN, 2018). Transposta para a educação, essa crítica é contundente: um sistema escolar que padroniza tudo, que mede o estudante apenas por índices e médias, corre o risco de eliminar justamente aquilo que faz da educação um acontecimento, a alteridade viva de quem aprende. O jeito franciscano de educar propõe uma pedagogia que acolhe a singularidade de cada estudante como valor, construindo na sua conjuntura a educação integral.
O terceiro princípio dessa sistematização é a comunidade como sujeito educador. O ser humano forma-se em uma rede de relações, com a família, com a escola, com o território, com a cultura. O Papa Francisco, ao lançar o Pacto Educativo Global, resgatou essa dimensão comunitária ao insistir que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança, e que essa aldeia precisa ser reconstruída onde foi destruída pelo individualismo (FRANCISCO, 2019). Em outra ocasião, sintetizou que educar é sempre um ato de esperança. A esperança é uma categoria pedagógica elementar para a constituição das humanidades.
O quarto princípio é o reconhecimento de que a educação se faz pelo afeto e pelo cuidado com a casa comum. O educador Rubem Alves lembra que a escola pode ser um lugar onde a alegria se ensina por contágio, e considera que o afeto é um método. Edgar Morin reforça nessa mesma direção na obra Os sete saberes necessários à educação do futuro, que o ensino da condição humana e da compreensão entre as pessoas são tarefas tão urgentes quanto ensinar matemática ou gramática (MORIN, 2000). O cuidado perpassa as relações humanas em direção à ecologia integral.
Os princípios de encontro, alteridade, comunidade e cuidado desenham um sistema pedagógico coerente, capaz de orientar currículo, formação de professores e gestão escolar. Nesse sentido, o jeito franciscano de educar dialoga com as críticas mais agudas do tempo presente, tratando com clareza o que Han tematiza como mercantilização das relações humanas e o que Morin aponta como hiperespecialização do saber, possibilitando que todos tenham o direito à palavra na dinâmica pedagógica.
Uma escola, uma sala de aula, um projeto pedagógico e evangelizador com a essência do jeito franciscano de educar compreende que o determinante está no caminho construído com todos os interlocutores institucionais, com expertise profissional e humana diante dos desafios da educação contemporânea. Cada encontro entre o professor e o estudante é tratado como oportunidade única de acender uma chama de esperança em direção à construção do conhecimento. É essa esperança, semeada no face a face, encontro a encontro, gesto a gesto, escuta a escuta, que pode ser considerada a contribuição atual dessa tradição pedagógica e evangelizadora ao tempo presente. A maior inovação do século XXI talvez não esteja nas dimensões tecnológicas, mas no exercício do encontro com outrem, que ao acolher com cuidado, permite à escuta demorada.