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Política

O analfabeto político tecnológico do século XXI

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O analfabeto político tecnológico é um prato cheio para quem descobriu que indignação dá mais audiên
Por Rodrigo Finardi
Foto IA

Bertolt Brecht, o dramaturgo alemão, deixou uma definição que atravessou décadas e continua assustadoramente atual. O analfabeto político seria aquele que “não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos” e que, de tão ignorante, ainda se orgulha de dizer que odeia a política. Só que os tempos mudaram. E o analfabeto político também.

Não conhece o assunto, mas tem certeza

Hoje ele tem celular, internet, grupo de WhatsApp, perfil nas redes sociais e opinião sobre absolutamente tudo. Não lê, mas comenta. Não pesquisa, mas compartilha. Não conhece o assunto, mas tem certeza. Não confronta argumentos, confronta pessoas.

É o analfabeto político tecnológico do século XXI. E talvez ele seja ainda mais perigoso que o personagem descrito por Brecht.

Não quer saber da verdade

O analfabeto político de ontem era omisso. O de hoje é ativo. Produz barulho. Compartilha desinformação. Repete frases feitas. Compra discursos prontos. Escolhe um lado antes de conhecer os fatos e passa a enxergar qualquer informação que contrarie sua convicção como mentira.

Não quer saber se é verdade. Quer saber se combina com aquilo que já decidiu acreditar.

Escolha ou reprodução e a preguiça intelectual

Estamos a três semanas de uma eleição. E este talvez seja o melhor momento para fazer uma pergunta incômoda: quantos eleitores estão realmente escolhendo seus candidatos e quantos estão apenas reproduzindo aquilo que alguém colocou dentro de suas cabeças? A democracia não combina com preguiça intelectual. Mas é exatamente dela que se alimenta o analfabetismo político moderno.

Quando nasce mais um soldado da fábrica da ignorância

O cidadão recebe um vídeo de 30 segundos e acredita ter compreendido um assunto que levou anos para ser construído. Recebe uma montagem, não verifica a origem, não procura o contexto e imediatamente compartilha. Lê uma manchete, não lê a matéria. Vê uma acusação, não procura a resposta. Encontra uma opinião que confirma aquilo que pensa e considera encerrada a discussão.  Nasce mais um soldado da fábrica da ignorância.

Quer democracia, desde que ninguém discorde dele

E há algo ainda mais contraditório. Esse mesmo cidadão pode defender a liberdade de expressão quando aquilo que lê agrada seus interesses e pedir silêncio quando o assunto político aparece em seu grupo de WhatsApp. Quer democracia, desde que ninguém discorde dele. Quer liberdade, desde que seja a liberdade de pensar igual. Quer debate, desde que não seja contrariado. Isso não é pensamento crítico. É torcida.

Quando o cidadão terceiriza o próprio cérebro

O problema não está em ter posição política. Muito pelo contrário. Uma democracia saudável precisa de cidadãos politizados, participativos e capazes de defender suas convicções. O problema começa quando o cidadão terceiriza o próprio cérebro.

Entrega sua capacidade de pensar para um influenciador. Para um líder político. Para um grupo de WhatsApp. Para um algoritmo. Para um vídeo editado. Para uma frase de efeito.

Pensar é desconfiar daquilo que queremos que seja verdade

E passa a acreditar que pensar é escolher um lado. Não é. Pensar é desconfiar inclusive daquilo que queremos que seja verdade. É fazer perguntas. É ouvir o outro. É admitir que podemos estar errados. É procurar informação antes de compartilhar uma acusação. É entender que nenhum político é dono da verdade, e nenhum eleitor deveria ser propriedade intelectual de político algum.

O algoritmo agradece

O analfabeto político tecnológico é um prato cheio para quem descobriu que indignação dá mais audiência do que informação. Quanto mais raiva, mais compartilhamento. Quanto mais mentira, mais velocidade. Quanto mais simplificação, maior o alcance. O algoritmo não precisa que você compreenda. Precisa que você reaja.

Eleitor dividido é mais fácil de conduzir

E, enquanto milhares de pessoas brigam nas redes sociais por políticos que muitas vezes sequer conhecem pessoalmente, há quem observe tudo isso com um sorriso, porque eleitor dividido é mais fácil de conduzir. A política passa a ser tratada como campeonato de futebol. Meu candidato é sempre o craque. O adversário é sempre o bandido. Meu erro é justificável. O erro do outro é imperdoável. E assim se constrói uma sociedade incapaz de discutir o que realmente importa.

Política não pode ser tratada como guerra entre torcidas

Daqui a três semanas, essa discussão deixará as redes sociais e chegará à urna. E ali não haverá botão de “compartilhar”. Não haverá como apagar depois. Não haverá como culpar o algoritmo. Não haverá grupo de WhatsApp para assumir a responsabilidade. Haverá uma escolha. E cada eleitor será responsável por ela. É justamente por isso que política não pode ser tratada como entretenimento, passatempo ou guerra entre torcidas.

O que existe além do discurso bonito?

A eleição é o momento em que o cidadão entrega a alguém uma parcela do poder que também lhe pertence. Por isso, antes de votar, pergunte. Quem é esse candidato? O que ele fez? O que promete? De onde vêm suas informações? Quem o financia politicamente? Quem o acompanha? Quem o apoia? Quais interesses representa? E, principalmente: o que existe além do discurso bonito?

Não seja marionete

Não vote porque alguém mandou. Não rejeite alguém porque alguém mandou. Não transforme meme em argumento. Não transforme ódio em programa de governo. Não transforme mentira repetida em verdade. Não seja marionete. O político precisa do eleitor desinformado. O marqueteiro precisa do eleitor emocional. O algoritmo precisa do eleitor indignado. Mas a democracia precisa do eleitor consciente.

Não permita que alguém pense por você

O analfabeto político do século XXI não é aquele que não sabe nada sobre política. É aquele que acha que sabe tudo sem nunca ter se dado ao trabalho de pensar. É aquele que grita antes de ouvir. Condena antes de conhecer. Compartilha antes de verificar. Vota antes de comparar. E depois reclama do resultado como se não tivesse participado da escolha. Não seja esse eleitor. Não entregue seu cérebro de aluguel. Não permita que alguém pense por você.

Eu estou escolhendo ou apenas sendo escolhido?

A política pode ser suja, contraditória, decepcionante, muitas vezes frustrante, mas necessária. Abandonar a política não significa ficar fora dela. Significa apenas deixar que outros decidam por você.  A pergunta mais incômoda que cada eleitor deveria fazer antes de apertar o botão seja esta: “Eu estou escolhendo ou apenas sendo escolhido?

 

 

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