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Opinião

Estocar alimentos?

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Beto Bordin
Por Carlos Alberto Bordin - Beto Bordin - Formado em História com pós-graduação em Ciências Sociais e Gerente de Cidades
Foto Beto Bordin

O pão de cada dia nunca pareceu tão político, nem tão refém da geografia. Acostumamo-nos a olhar para o campo como um santuário de paciência, onde a semente encontra a terra e a chuva cumpre seu papel ancestral. Contudo, entre o sulco da lavoura e a prateleira do supermercado, existe uma teia invisível de engrenagens globais que, quando estalam, fazem tremer o prato de comida no centro das nossas casas.

O mais recente alerta não vem da poesia, mas da frieza dos números de um relatório do JPMorgan. O diagnóstico é severo: o mundo pode entrar em uma rota de colisão com a escassez alimentar a partir de 2027. Uma tempestade perfeita molda-se no horizonte, tecida pela fusão de dois gigantescos sobressaltos: a geopolítica armada e a fúria climática.

De um lado, a química que alimenta o solo. Cerca de 70% dos insumos essenciais para fertilizantes partem do Oriente Médio. Com o fechamento e as tensões no Estreito de Ormuz, a rota do nitrogênio congelou. O fertilizante, contudo, é implacável em seu calendário; precisa ser aplicado no momento exato do ciclo celular da planta. Perder essa janela sutil não significa apenas adiar a colheita, mas minguar a produtividade do grão. Recompor essa infraestrutura ferida pode levar até quatro anos, um hiato longo demais para a fome humana, que não tolera esperas.

Do outro lado, o céu recusa a trégua. As projeções apontam uma probabilidade assustadora de 81% de o atual El Niño escalar para uma versão "super" até o final deste ano, estendendo seus tentáculos quentes pelo Pacífico até 2027. Historicamente, quando o oceano feveresce, a agricultura tropical encolhe. O calor fora de hora e a seca prolongada prometem abocanhar, em média, 3,5% da produção nessas regiões, desorientando os produtores que já não sabem mais quando semear.

Quando o campo padece, a economia cobra o sustento na moeda da inflação. Estimativas mostram a inflação global dos alimentos saltando de 2,8% em 2026 para impressionantes 5% em 2027. Países populosos e potências agrícolas como o Brasil, a Índia e a Indonésia sentirão esse baque com peso dobrado. Para nós, a contradição doerá na pele: seremos, ao mesmo tempo, os celeiros com lavouras sedentas por insumos e os consumidores assustados diante do carrinho de compras.

A agricultura, portanto, não pode seguir tratada como um pano de fundo silencioso do PIB. Ela é o tecido mais vulnerável e vital da geopolítica moderna. Estocar comida deixou de ser um roteiro de ficção para se tornar uma urgência de estado. Se não trouxermos o debate sobre a terra, o clima e a soberania dos insumos para o centro da mesa agora, o amanhã nos reservará uma indigesta constatação: a de que deixamos a vida humana à mercê do vento e da guerra. Nesta mesma seara é de fundamental importância dar voz ao campo e melhorar a comunicação sobre o agro, que produz o alimento e enfrenta inúmeros obstáculos na opinião pública sobre seus resultados, e assim desprezando aqueles que de sol a sol labutam para garantir o alimento na mesa de todos.

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