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Expressão Plural

Um bom dia para morrer

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

“Hoje é um bom dia para morrer.” Essa é o enunciado sempre feito e refeito por Worf, o alienígena da espécie Klingon, de Star Trek – Jornada nas Estrelas. É uma frase e tanto, não é? Se a considerássemos assim, de bate-pronto, teríamos o vezo de dizer: “Que absurdo”! Isso é uma contradição em termos: morte não combina com dia bom!” Iremos, porém, considerá-la de um outro modo, deixando uma distância entre ela mesma e o ponto no tempo e no espaço em que nos encontramos. Às vezes, respostas surgem nesse espaço criado - “naturalmente”.

De um modo geral, em Star Trek, aquela é uma sentença empregada por Worf, ou por qualquer klingon, em um contexto de iminência de uma luta ou batalha, mas eu proponho que a pensemos com constituindo a base moral daquela cultura, toda uma ética... de vida. Se hoje é um bom dia para morrer, é porque eu estou inteiro, aqui e agora – ainda que inacabado -, em todas as dimensões de minha vida. Fisicamente, mentalmente, emocionalmente, espiritualmente (seja o que “espiritualmente” queira dizer). Na medida do possível, é claro. Não há nada de maior vulto a ser resolvido, esclarecido, não há autos a serem reabertos. Não há pontas a serem amarradas, arestas a serem lixadas, célebres últimas palavras a serem proferidas. Para que um dia seja considerado bom para morrer – como qualquer outro -, é porque a vida foi bem vivida (não necessariamente “boa” – isso é outra coisa). E, fundamentalmente, eu não posso me furtar à luta, de qualquer jeito.

Trago dois contos da tradição Zen (Leary e Payne) que ilustram essa perspectiva estoica dos ficcionais klingons (e o que não é em alguma medida ficcional?):

“Uma vez, o exército de um tirano invadiu um pequeno vilarejo. O vilarejo estava vazio: todos os habitantes haviam se refugiado nas montanhas, exceto um monge. O tirano ficou enfurecido diante do destemor do monge e foi ao mosteiro, encontrando-o em prática de meditação. Gritou: “Você não sabe quem eu sou? Eu poderia puxar minha espada e, sem sequer tremer ou pestanejar, cortá-lo em dois!” O monge replicou, sem mover os olhos da parede branca: “E você não sabe quem eu sou? Eu poderia permanecer inteiramente imóvel e, sem sequer tremer ou pestanejar, assisti-lo puxar sua espada e cortar-me em dois..."

A outra: “Havia um mestre da Cerimônia do Chá que um dia, inadvertidamente, ofendeu um samurai e este o desafiou para um duelo. O mestre, que não tinha nenhuma habilidade de luta, mas que havia alcançado elevada realização em sua arte, recorreu a um mestre Zen em busca de aconselhamento. Este disse-lhe que existiam pouquíssimas chances de ele sobreviver ao duelo, e que a melhor coisa a fazer era assegurar uma boa morte, digna e honrosa, tratando o combate como se fosse um ritual formal da Cerimônia do Chá. Que deveria organizar-se mental e espiritualmente, e esquecer qualquer pensamento sobre a vida e a morte, segurando a espada como se fosse um bule de chá, usando-a com a mesma concentração e precisão aplicadas no momento de verter a água fervente sobre o chá. Deveria também avançar sobre o opositor e, com um único golpe, vencê-lo. Na manhã seguinte, na hora marcada para o duelo, o samurai arregalou os olhos: deparou-se com um adversário tão sereno e tão claramente destituído de medo, que recuou, cumprimentando com a cabeça e abandonando o combate.”

Um bom dia para morrer é como um bom dia para viver: com coragem e meios-hábeis para enfrentar nossos medos.

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