Quando a promessa é maior que a realidade, surgem frustrações.
Recebo muitas abordagens do tipo:
— Como você faz para estar em tantos Conselhos? Qual o melhor curso para me “transformar” em um Conselheiro?
Vejo que hoje existe uma indústria vendendo a ideia sedutora para quem deseja ingressar em Conselhos de Administração: alta remuneração, poucas horas de trabalho, prestígio e uma carreira praticamente sem envolvimento operacional. É uma narrativa atraente, mas perigosamente distante da realidade.
Ser conselheiro não é ocupar uma cadeira. É assumir a responsabilidade de ajudar a empresa a construir o futuro, tomar decisões difíceis, questionar premissas, proteger os interesses dos sócios e, principalmente, fazer as perguntas certas antes que os problemas apareçam. E não existe um “modelo universal” de governança.
Governança de verdade nasce da compreensão de cada empresa: sua história, estrutura societária, estágio de maturidade, ambições, riscos, mercado, cultura e, sobretudo, suas intenções estratégicas.
Antes de discutir quem deve sentar no Conselho, é preciso responder perguntas muito mais importantes: Onde queremos chegar? Qual é o horizonte de futuro? Qual é a visão? Que empresa queremos construir? E, a partir daí, outras questões fundamentais: Como pretendemos competir para chegar lá? Qual é o nosso perfil competitivo? Onde vamos jogar? Em quais mercados? Com quais diferenciais? Quais capacidades precisamos desenvolver? Que decisões estratégicas serão determinantes?
Só depois dessas respostas faz sentido desenhar a arquitetura de governança, definir competências, composição do Conselho, comitês, ritos, indicadores e responsabilidades.
Um Conselho pode ser tecnicamente brilhante e, ainda assim, ser absolutamente ineficaz se não estiver conectado à estratégia da empresa.
O verdadeiro desafio da governança não é simplesmente controlar, é criar as condições para crescer preservando valor, antecipando riscos e enfrentando os fatores críticos de sucesso que podem acelerar ou impedir a execução da estratégia viável. Por isso, desconfio das promessas de uma “carreira de Conselheiro” baseada em baixa dedicação e alta remuneração.
Conselho exige preparo, exige experiência, exige independência, exige coragem para discordar, exige disposição para mergulhar nos números, entender o negócio e acompanhar as mudanças de mercado. E, acima de tudo, exige compreender que governança não é um produto pronto que se compra numa prateleira ou em um curso. É um modelo que precisa ser construído para cada empresa, para aquele momento e para aquele futuro que os sócios decidiram construir.
Talvez a pergunta mais importante para quem quer ser conselheiro não seja: “Quanto vou ganhar por uma reunião?”, mas sim: “Que valor consigo agregar às decisões que definirão o futuro dessa empresa?”
É aí que começa, de fato, uma carreira de Conselheiro.