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Expressão Plural

Quando a mãe parte, o amor permanece

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Carlos da Silveira
Por Carlos Silveira
Foto Arquivo pessoal

Há perdas para as quais nenhuma palavra parece suficiente. A partida de uma mãe é uma delas. Porque mãe não é apenas aquela que nos dá a vida. Mãe é presença, abrigo, conselho, cuidado. É aquela voz que, mesmo quando não concordamos, continua ecoando dentro de nós. É o colo que permanece na memória mesmo depois que os braços já não podem mais nos envolver.

Quando uma mãe parte, alguma coisa dentro de nós parece partir junto. A casa muda de silêncio. As lembranças ganham outro peso. Pequenas coisas, que antes pareciam comuns, passam a ter um significado imenso: uma fotografia, uma receita, uma palavra, um jeito de olhar, uma história contada tantas vezes.

É então que percebemos que o amor de uma mãe não desaparece com a morte. Ele apenas muda de lugar. Passa a viver nas lembranças, nos ensinamentos, nos gestos que repetimos sem perceber. Vive na maneira como tratamos nossos filhos, na preocupação que carregamos pelos que amamos, nas histórias que contamos e até nas palavras que usamos.

Uma mãe deixa muito mais do que lembranças. Deixa raízes. Ela participa daquilo que nos tornamos. Está em nossas escolhas, em nossos valores, em nossa maneira de enfrentar as dificuldades. Muitas vezes, descobrimos que determinadas forças que julgávamos serem apenas nossas foram, na verdade, ensinadas por ela ao longo de toda a vida. Talvez por isso a despedida seja tão dolorosa. Porque não estamos apenas dizendo adeus a uma pessoa. Estamos nos despedindo de uma parte da nossa própria história.

E não existe idade para deixar de ser filho. Podemos ter 10, 30, 60 ou 80 anos. Podemos construir nossas próprias famílias, conquistar nossos caminhos, enfrentar nossas batalhas. Ainda assim, diante da mãe, existe dentro de nós aquele filho que procura um olhar, uma palavra, um carinho. Por isso, quando ela parte, fica esse vazio difícil de explicar.

Mas, junto com o vazio, permanece tudo aquilo que ela nos deu. Permanece o amor. Permanece a saudade. Permanece a história. E, principalmente, permanece a certeza de que algumas pessoas nunca vão embora completamente. Elas continuam vivendo em nós.

Talvez o luto seja justamente aprender a conviver com essa nova forma de presença. No começo, dói lembrar. Depois, aos poucos, a lembrança começa a trazer também ternura. A saudade continua, mas deixa de ser apenas dor e passa a ser uma forma de agradecer. Agradecer pelo tempo vivido. Pelos cuidados. Pelas palavras. Pelos momentos simples. Pelo amor que não precisou ser perfeito para ser imenso.

Porque mães também são humanas. Têm suas limitações, seus medos, seus erros e suas histórias. Mas existe algo na relação entre mãe e filho que ultrapassa essas imperfeições: o vínculo construído ao longo de uma vida. E esse vínculo não termina quando o coração para de bater. Ele permanece no coração de quem fica.

Talvez seja essa a maior herança de uma mãe: ensinar, mesmo sem perceber, que amar alguém é deixar uma parte de si na vida dessa pessoa. E quando ela parte, essa parte continua conosco.

Por isso, hoje, diante da saudade, talvez não seja preciso procurar respostas. Talvez seja suficiente lembrar. Lembrar do sorriso. Da voz. Das histórias. Dos momentos bons e até daqueles que, na época, pareciam difíceis. Lembrar da mulher que existiu antes de ser apenas uma lembrança. E dizer, mesmo em silêncio: Obrigado, mãe. Obrigado pela vida. Obrigado pelo amor. Obrigado por tudo aquilo que você deixou em mim.

A morte pode interromper a presença física, mas não consegue apagar uma história de amor. Porque quando uma mãe parte, ela não deixa de ser mãe. Apenas passa a morar em outro lugar: na memória, nas histórias, nos gestos, nos ensinamentos e, principalmente, dentro dos filhos. Uma mãe continua sendo mãe. Para sempre. Homenagem a minha companheira, Renúncia Maria da Silveira, minha mãe, que partiu e deixa uma saudade infinita e um amor mais que sublime.

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