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Saúde

De médica a gestante, um novo olhar às pacientes

Grávida, ginecologista vive as angústias, descobertas e expectativas que acompanha diariamente no consultório

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Entre as ansiedades do caminho, Marianne segue entre a sensação de que a gestação passa rápido demai
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Arquivo pessoal/Marianne Ongaratto Lumi

Grávida de 34 semanas, a médica ginecologista, obstetra e fetóloga Dra. Marianne Ongaratto Lumi vive uma experiência que, embora faça parte de sua rotina profissional, ganhou novos significados quando passou a acontecer com ela. Acostumada a acompanhar mulheres durante a gestação, Marianne agora experimenta, na condição de futura mãe, as ansiedades, os medos, as dúvidas e também as descobertas que acompanham a espera por um bebê.

A experiência tem transformado a maneira como ela enxerga as próprias pacientes. Mesmo com conhecimento técnico sobre os processos da gestação e segurança para interpretar exames e possíveis alterações, Marianne percebeu que o conhecimento médico não impede que as emoções apareçam. "Agora estou sentindo na pele toda a ansiedade, preocupação e angústia que tantas mães sentem durante a gestação", conta.

Para ela, uma das principais aprendizagens foi entender a importância de separar a profissional da paciente. "Mesmo tendo conhecimento médico e sabendo, racionalmente, que está tudo bem na minha gestação, muitas vezes também procuro ajuda dos profissionais que estão ao meu redor e me coloco no lugar de paciente. E isso é muito importante, saber diferenciar a Marianne médica da Marianne futura mamãe".

A vivência também mostrou que o conhecimento técnico pode, em determinadas situações, ampliar as preocupações. "Não pensem que, por eu ser médica e fetóloga, não passo por aflições, preocupações ou angústias. Muitas vezes, o conhecimento técnico simplesmente é apagado pela emoção. A gente sabe o que está acontecendo, conhece os riscos, entende os exames, mas, quando é com a gente, o lado emocional fala muito alto", emenda.

A espera por Carolina

Carolina foi uma bebê muito desejada por Marianne e pelo marido. A gestação foi descoberta com apenas três semanas e, a espera tem sido marcada por diferentes sentimentos. "Como uma legítima obstetra, fetóloga e ansiosa também, claro, descobri a gestação muito cedo, com apenas três semanas. Então, ao mesmo tempo em que às vezes parece que a gestação está passando muito rápido, em outros momentos parece que nunca vai chegar a hora de ela nascer", coloca Marianne.

Mesmo conhecendo os exames e sabendo quais sinais exigem atenção, a futura mamãe também experimenta a expectativa antes de cada avaliação, pois antes de cada exame, ela e o marido esperam muito pela notícia de que esteja tudo bem e que, qualquer alteração na movimentação fetal já os deixa de olhos bem abertos. “Muitas vezes, saber demais pode ser até pior do que saber de menos", brinca ela.

Ao longo da gestação, Marianne precisou também lidar com uma constatação que costuma transmitir às pacientes, a de que não é possível controlar todas as variáveis. "Acho que uma das grandes lições é entender que não temos controle sobre tudo. Saber se colocar no lugar de paciente, ter acompanhamento de bons profissionais e seguir as orientações corretas faz toda a diferença", frisa.

A experiência também trouxe para a prática alguns dos cuidados que ela recomenda às gestantes. Desde o primeiro trimestre, Marianne mantém uma rotina de atividade física, mesmo durante períodos de náuseas, dores nas costas e na pelve. Além disso, realiza fisioterapia pélvica e procura manter atenção à alimentação e ao próprio corpo.

"Se não houver contraindicação, mantenham-se ativas, cuidem da alimentação e do corpo. Isso faz muita diferença durante a gestação e também depois, na recuperação", orienta a futura mamãe.

Quando a teoria encontra a realidade

Entre os sintomas que ganharam um novo significado estão as náuseas e os vômitos do primeiro trimestre. Marianne já sabia, pela experiência profissional, que esse período pode ser difícil, mas a própria vivência trouxe uma dimensão diferente ao problema. Entre seis e 13 semanas, ela enfrentou vômitos praticamente diários e a situação foi mais complicada porque a gestação ainda não havia sido divulgada, então além de enfrentar os sintomas, ela tentava esconder das pessoas ao redor que estava grávida.

"Hoje consigo compreender muito melhor quando uma paciente me fala que está exausta, que não consegue comer, que está passando o dia inteiro enjoada ou que sente que não vai dar conta", afirma. Apesar da dificuldade, ela diz que passaria novamente pela experiência. "No final, tudo valeu a pena. E eu passaria por tudo novamente pela Carolina".

A identificação com as pacientes, porém, não surgiu em um único momento. Foi construída ao longo das diferentes fases da gestação. Marianne passou pela espera do primeiro trimestre e da primeira ultrassonografia morfológica antes de anunciar a gravidez, enfrentou um sangramento nas primeiras semanas, teve náuseas e vômitos intensos, sono, dores pélvicas a partir das 20 semanas e a ansiedade que antecede cada exame.

Em uma dessas etapas, também descobriu um risco aumentado para pré-eclâmpsia e iniciou o uso de AAS a partir da primeira ultrassonografia morfológica. "Foi mais uma vez que percebi, na prática, a importância de um exame bem feito e realizado no momento adequado", salienta.

A rotina profissional continuou durante todo esse período, mas a gestação também trouxe momentos em que o cansaço falou mais alto. "Apesar de muitas vezes parecer que estou vivendo uma gestação plena e tranquila, muitas vezes eu estou mesmo é querendo dormir e descansar", brinca.

Conhecimento que ajuda e também provoca ansiedade

Para uma especialista em medicina fetal, conhecer as possibilidades relacionadas a cada sintoma ou alteração pode ser uma vantagem, mas também pode alimentar preocupações. O diagnóstico de risco aumentado para pré-eclâmpsia, por exemplo, imediatamente fez Marianne pensar nas possíveis consequências para ela e para o bebê. "Com certeza torna tudo mais aflorado. Saber o que esperar diante de cada sintoma ou de cada possível alteração que pode aparecer nos exames, muitas vezes, é bastante angustiante".

Ao mesmo tempo em que o conhecimento permite compreender o que está acontecendo e adotar medidas preventivas, ele também amplia a quantidade de cenários imaginados. "O conhecimento ajuda, mas também atrapalha. Ao mesmo tempo em que nos permite entender melhor o que está acontecendo e tomar medidas preventivas, ele também faz com que a nossa cabeça conheça todos os cenários possíveis", explica ela.

Para Marianne, a saída está no equilíbrio entre informação e ansiedade. A própria experiência fez com que ela desse ainda mais valor à atividade física, à alimentação e aos cuidados durante a gestação, mas também à capacidade de confiar nos profissionais responsáveis pelo acompanhamento.

A importância de pedir ajuda e aceitar os limites

Outro aprendizado veio da percepção de que a gestação é atravessada por diferentes períodos de espera. Depois das preocupações do primeiro trimestre, vêm as ultrassonografias morfológicas, o ecocardiograma fetal, o acompanhamento do crescimento e, mais adiante, a expectativa pelas 37 semanas, quando o bebê deixa de ser considerado prematuro. "É uma sucessão de etapas e de esperas. E, em cada uma delas, a gente precisa respirar fundo para não surtar", resume, entre risos.

Nesse processo, a presença do marido tem sido fundamental. Para Marianne, ter alguém ao lado que ofereça apoio e compreensão pode tornar a experiência mais tranquila, especialmente durante a primeira gestação. "Sem a ajuda e o apoio do meu marido, eu provavelmente não conseguiria passar por tudo isso com a mesma tranquilidade”.

Ela também considera importante o papel da família, dos amigos e da rede de apoio, que podem oferecer acolhimento, conselhos e segurança aos pais que estão vivendo pela primeira vez as incertezas da maternidade e da paternidade.

A profissional também reconhece que, apesar de todos os anos de estudo e experiência, continua sendo necessário recorrer a outros especialistas. "Não pensem que eu não estudo depois de cada sintoma novo. Eu me questiono sobre muitas coisas, procuro minha obstetra para dividir algumas frustrações e, muitas vezes, preciso ouvir de outro profissional aquilo que eu mesma falaria para uma paciente, afinal sou humana”, aponta.

Uma nova forma de ouvir

A experiência de estar do outro lado da consulta fez Marianne perceber que, muitas vezes, uma resposta médica tecnicamente tranquilizadora não é suficiente para fazer a ansiedade desaparecer imediatamente. "Hoje eu consigo olhar para minhas pacientes e pensar: 'Eu entendo você'. Não porque passei a saber mais sobre gestação, mas porque passei a sentir um pouco do que existe por trás de cada dúvida, de cada medo e de cada 'doutora, está tudo bem?'".

Para ela, compreender esse lado emocional é essencial para uma assistência mais humana. Cada gestação é única e, mesmo quando exames e avaliações indicam que está tudo bem, a insegurança pode continuar presente. A própria trajetória durante os últimos meses tornou essa percepção mais concreta. Sangramento no primeiro trimestre, vômitos intensos, dores pélvicas, cansaço e as preocupações que surgem antes de cada exame fizeram parte de uma gestação que, apesar de acompanhada por uma especialista, também é vivida por uma mulher que sente medo e ansiedade.

Para Marianne, quando um profissional informa que está tudo bem, é importante confiar na avaliação feita naquele momento. "Na medicina não existem garantias de 100%, mas existe acompanhamento, conhecimento, cuidado e responsabilidade" Por isso, ela considera fundamental escolher profissionais de confiança e manter um acompanhamento adequado durante toda a gestação.

Entre medos, cuidados e descobertas, a experiência também tem revelado o lado afetivo da maternidade. "Apesar de todos os pesares, a gestação é uma fase maravilhosa. É um momento mágico. Cada chutinho, cada soluço, cada mudança na barriga, tudo ganha um significado diferente", coloca Marianne.

Agora, prestes a viver uma nova etapa, ela leva consigo não apenas o conhecimento acumulado ao longo da carreira, mas também a experiência de ter sido paciente. “Aproveitem muito essa fase, tirem suas dúvidas quando elas surgirem, conversem com os profissionais que acompanham vocês e permitam-se viver esse momento com mais leveza. Porque, no fim, por trás de cada consulta, existe uma mãe cheia de expectativas e medos e, do outro lado, existe um profissional que também quer, acima de tudo, o melhor para ela e para o bebê”, conclui a futura mamãe.

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