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Expressão Plural

Quando a violência contra crianças deixa de nos indignar

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Por André Ribeiro - Mestre em Educação
Foto André Ribeiro

As notícias das últimas semanas revelam uma realidade que deveria causar indignação coletiva: a violência contra crianças parece estar se tornando cada vez mais banalizada.

Um missionário norte-americano agrediu o próprio filho de três anos, levando-o à morte, porque a criança não lhe deu um "bom dia" da forma como ele esperava. Um pai chutou o rosto da filha, também de três anos, em plena via pública, porque ela chorava. Em outro caso, uma menina de apenas dez meses morreu após ser vítima de violência praticada pelo padrasto e pelo irmão dele.

Diante de episódios tão cruéis, permanece uma pergunta inevitável: por quê?

É difícil encontrar respostas capazes de explicar tamanha barbárie. Mais difícil ainda é compreender por que parte da sociedade insiste em buscar justificativas para crimes dessa natureza. Problemas psicológicos, transtornos emocionais ou questões espirituais são frequentemente utilizados como argumentos para relativizar condutas que, na verdade, são absolutamente inaceitáveis.

Ao compartilhar algumas dessas notícias nas redes sociais, deparei-me com comentários que tentavam explicar o comportamento dos agressores sob a ótica de supostos problemas mentais ou espirituais. Embora transtornos psicológicos possam existir e mereçam tratamento adequado, eles não podem servir como atenuantes morais para atos de extrema violência contra pessoas indefesas.

Essa tendência à relativização preocupa. Parece que, diante de crimes bárbaros, muitos se sentem aptos a diagnosticar criminosos e minimizar suas responsabilidades, enquanto a dor das vítimas acaba relegada a um segundo plano.

Cabe perguntar: será que só nos sensibilizamos quando a vítima faz parte da nossa própria família? Ou estamos nos acostumando a conviver com a violência a ponto de buscarmos justificativas para aquilo que jamais deveria ser tolerado?

Toda vez que a sociedade normaliza ou relativiza a violência, ela enfraquece os próprios valores que sustentam a convivência humana.

O Brasil dispõe de uma ampla rede de proteção à infância, formada pela família, pela sociedade e pelo Estado. Quando a família falha em seu dever de proteger, cabe aos demais integrantes dessa rede agir de forma rápida e eficiente.

Nesse contexto, torna-se necessário refletir sobre o funcionamento dos mecanismos de proteção. Conselhos Tutelares, Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), serviços de saúde, escolas, Ministério Público, Poder Judiciário e demais instituições cumprem plenamente suas responsabilidades? Existem falhas na comunicação entre esses órgãos? Há situações em que denúncias deixam de receber a devida atenção em razão da posição social, econômica ou religiosa dos envolvidos?

Essas perguntas não buscam condenar previamente instituições ou profissionais, mas reforçar a necessidade de constante avaliação e fortalecimento da rede de proteção à infância. Afinal, prevenir a violência exige vigilância permanente, integração entre os órgãos públicos e compromisso coletivo.

Toda criança tem direito à dignidade, ao cuidado e à proteção. O mesmo vale para idosos, pessoas com deficiência e todos aqueles que se encontram em condição de maior vulnerabilidade. Não há justificativa aceitável para qualquer forma de violência contra esses grupos.

Mais do que lamentar tragédias depois que elas acontecem, é dever de cada cidadão observar, acolher, orientar e denunciar situações de violência sempre que houver suspeita. Da mesma forma, cabe à sociedade cobrar do Estado o cumprimento efetivo de suas responsabilidades, garantindo que os instrumentos de proteção funcionem de maneira eficiente.

A violência contra crianças não pode ser explicada, muito menos relativizada. Ela precisa ser enfrentada com firmeza, responsabilidade e compromisso coletivo. Uma sociedade que protege suas crianças protege, acima de tudo, o seu próprio futuro.

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