Final de semana numa cabana charmosa, na serra gaúcha, daquelas que fazem a gente esquecer o mundo lá fora.
A poucos metros havia um pequeno lago. A água estava completamente verde, opaca, coberta por uma espécie de nata de algas que impedia qualquer visão do que existia abaixo da superfície.
Enquanto observava aquela paisagem, alguns patos entraram no lago. Nada fizeram de extraordinário. Apenas nadaram, livres e desordenados.
Mas bastou o movimento aparentemente intencional de suas patas para que aquela camada superficial começasse a se dissipar.
Em poucos instantes, a água parecia mais clara e transparente.
Aquilo me fez pensar sobre o papel dos Conselhos nas organizações, ou seja, acabou o momento de relax.
Muitas vezes, nossa simples presença, nossas perguntas e nossos questionamentos já produzem um efeito semelhante ao dos patos naquele lago.
Movimentamos as águas.
Rompemos a aparente estabilidade.
Trazemos à tona temas que estavam acomodados.
E isso, sem dúvida, ajuda a enxergar melhor a realidade.
Mas talvez nosso papel não possa se limitar a isso.
Agitar a água pode clarear momentaneamente a superfície. Porém, os elementos que a tornavam turva, continuam lá. Apenas mudaram de lugar.
Em Governança, não basta gerar movimento. Não basta provocar reflexões. Não basta fazer perguntas inteligentes.
O verdadeiro desafio está em ajudar a organização a identificar, compreender e remover os elementos que comprometem sua clareza: processos inadequados, incentivos desalinhados, conflitos mal resolvidos, informações incompletas, riscos negligenciados e decisões baseadas em percepções, e não em fatos.
Enquanto esses elementos permanecerem suspensos, a transparência será apenas circunstancial.
Um Conselho efetivo não existe para criar ondas ou marolas. Existe para contribuir para que a água permaneça limpa.
Porque organizações saudáveis não dependem de movimentos ocasionais para enxergar o fundo do lago.
Dependem da capacidade permanente de filtrar aquilo que impede a visão da realidade.