Estávamos na quarta-feira passada jantando e vendo o Grêmio em um restaurante, depois da aula, e a conversa derivou para livros e leitura, e tudo, e alguém disse que estava lendo o “Realismo Capitalista”, do Mark Fisher, mas que já o havia largado diversas vezes - por razões variadas, a leitura não engrenava.
Eu lembrei de perguntar se eles sabiam da "manha das 10 páginas". A manha das 10 páginas é assim: como não há caminho fora da leitura - a leitura do livro, a leitura do mundo, o mundo como um livro, os livros como mundos -, tu estabeleces a "lei" de escolher um livro e ler um mínimo de dez páginas por dia. Seria um "piso", um mínimo mesmo. Em um dia bom, tu lês mais: quarenta, cem páginas.
Pense em uma semana daquelas super corridas, uma daquelas que a gente nem vê passar. Tu olhas para o teu livro (é preciso carregá-lo consigo sempre) e... leu 70 páginas! E aí mais uma semana daquelas se passa, e tu leu 140! E 3.650 em um ano, no mínimo! Quer dizer: tu melhoras a tua capacidade de leitura da vida, do Universo e de tudo o mais, não importando o que tu faças neste mundo para viver. Não tem como errar.
Bem: voltando para o restaurante. Eu contei uma história que ocorreu em agosto de 2003. Eu tinha voltado de Erechim (trabalhava na URI) na madrugada, dado aula no colégio de manhã e à noite, e tinha de ir dormir no Hospital da PUC de Porto Alegre, onde meu pai estava internado, para acompanhá-lo. Cheguei lá por volta de meia-noite e fazia um frio inacreditável, cortante, enregelante - Porto Alegre sabe ser uma cidade fria no inverno. Meu pai já estava dormindo, e, no quarto, havia mais um sujeito que também dormia.
Não havia cama para mim, mas havia uma poltrona baixa, de couro, tipo um pufe, e eu tirei os tênis e me joguei ali, de jaqueta, luva e tudo. Uma enfermeira que passou no quarto para fazer o que as enfermeiras fazem se apiedou de mim e trouxe um cobertor. Eu era um cansaço só. Fui me esquentando e pegando no sono devagarinho. No corredor lá fora, e na recepção do andar, alguma movimentação típica de grandes hospitais. Vozes, passos, telefones... Fui relaxando e piscando, piscando, piscando... e então arregalei os olhos: não havia lido as minhas dez páginas mínimas do dia!
Isso que tu estás pensando agora - ah!, deixa pra lá e amanhã lê vinte - não pode, não está na "lei". E não se trata de uma questão de rigidez, mas de manter a regra mínima, curta, enxuta, simples e elegante: dez páginas por dia, no mínimo! Tenho certeza de que peguei para valer no sono, mas voltei a acordar. Suspirei fundo. Joguei o cobertor de lado, botei os tênis, abri a mochila e peguei o livro que estava (re)lendo - nunca esqueço: "O fim da Terra e do Céu", do Marcelo Gleiser, baita obra em que o físico brasileiro radicado nos Estados Unidos discute as narrativas de apocalipse nas Religiões e na Ciência, comparando-as. Eu olhei para o livro e ele me olhou de volta, daquele modo silencioso, digno e só aparentemente indiferente que os livros têm.
Desci valentemente pelas escadas congeladas, saí do prédio e caminhei todo o espaço aberto até aquela cantina que permanece aberta a noite inteira, lá na PUC. Devo ter tomado uns dois, três cafés - nada que tenha me impedido de dormir, depois, em minha poltrona, até ser acordado por alguém de manhã, já com o hospital funcionando a todo gás. Até meu pai já estava acordado, sentado na cama, dando risada e folheando "O fim da Terra e do Céu": "E aí? Nem vi tu chegar...".
Antes de me levantar e me "aprumar", olhei para o livro nas mãos de meu pai e para o marcador de páginas que eu havia feito avançar. Sorri. Um pouco mais tarde, desci com meu pai - apensar da gravidade do estado dele, precisava fumar seu cigarro clandestino de todas as manhãs. Sentamo-nos ao sol. Ele estava super bem naquele dia (viria a morrer cinco anos depois). E eu respirei fundo, fechando os olhos, com um jeitão assim de quem havia salvado o Céu e a Terra.
"Tu dá aula hoje ainda?" "Sempre, pai. Sempre..." "Mete bronca, campeão!"