Existem vozes que atravessam o tempo. Vozes que não apenas informam, mas acompanham a vida das pessoas, entram silenciosamente nas casas, despertam emoções, anunciam acontecimentos históricos e ajudam a construir a identidade de uma região inteira. Assim é a trajetória do radialista Rui Tomazelli, que em 2026 completa impressionantes 60 anos dedicados ao rádio.
Mais do que um marco profissional, a data representa uma vida inteira construída ao lado do microfone, da notícia e da comunidade regional. Uma caminhada que se mistura com a própria evolução da comunicação no Alto Uruguai e com a história da Rádio Difusão.
A relação de Rui com o rádio começou ainda na infância, nos anos 1950, muito antes de imaginar que se tornaria um dos nomes mais conhecidos da radiodifusão regional. Na época, sua família vivia no interior, sem energia elétrica. O rádio funcionava à bateria, em aparelhos simples, mas capazes de abrir janelas para o mundo.
“Captávamos emissoras do centro do país, da capital gaúcha e depois a pioneira rádio Erechim. A bateria tinha pouca duração e precisava ser recarregada. Era uma viagem de ônibus ou trem até Gaurama e depois alguns quilômetros a cavalo”, recorda.
O ritual de ouvir rádio fazia parte da rotina familiar. O aparelho era ligado ao meio-dia para acompanhar o grande jornal falado e, aos domingos, o tradicional Grande Rodeio da Rádio Farroupilha. Em meio ao silêncio do interior, o rádio se transformava em companhia, informação e encantamento.
No início dos anos 1960, a mudança da família para Erechim abriu novos horizontes. A cidade vivia um período de crescimento e transformação, impulsionada por obras, desenvolvimento econômico e pela chegada de novos meios de comunicação. Foi nesse cenário que surgia a Rádio Difusão ZYU 101, idealizada por Azziz Chalela, emissora que rapidamente conquistaria o carinho dos ouvintes.
Após as missas dominicais na antiga Igreja Matriz São José, Rui e outras crianças subiam as escadas ao lado do prédio para participar do Clube Infantil da rádio. Ali conheceu os radialistas que admirava. Sem saber, começava a nascer um sonho.
E o sonho ganhou forma em 1966
Com apenas 16 anos, Rui Tomazelli recebeu o convite para ingressar oficialmente no rádio. Era o início de uma trajetória que atravessaria gerações, tecnologias e transformações profundas na comunicação.
“Foi na primeira Frinape que as portas se abriram para que eu pudesse cursar Ensino Superior, formar família e adquirir minha casa”, relembra emocionado.
Ao longo das décadas, Rui acompanhou momentos decisivos da história regional. Viveu a expansão da Rádio Difusão sob o comando de Ydillio Badalotti, presenciou o crescimento da comunicação regional, o surgimento das rádios FM, da Rádio Gaurama e também da televisão regional, atuando inclusive na origem da TV Alto Uruguai. Foram anos intensos, de dedicação praticamente integral à profissão.
“A semana era sete por zero. Estávamos sempre acompanhando os acontecimentos locais e regionais e participando dos eventos da comunidade”, destaca.
A trajetória também foi marcada por desafios. Em 1979, um forte temporal atingiu o parque de transmissores da Rádio Difusão Sul-Riograndense, episódio que marcou a história da emissora e da comunicação regional. Mas, assim como o rádio, Rui também atravessou as tempestades do tempo sem perder a essência.
Ao olhar para trás, ele percebe que viveu todas as grandes fases da comunicação: do rádio à bateria no interior às transmissões em tempo real potencializadas pela internet.
“Antes, corríamos atrás da notícia. Hoje, a notícia corre até as redações em tempo real”, resume.
Mesmo diante das transformações tecnológicas, Rui Tomazelli segue acreditando na força humana do rádio. Na companhia silenciosa que atravessa madrugadas, no microfone que acolhe, na notícia que aproxima e na voz que cria vínculos afetivos com a comunidade.
Sua história não é apenas a de um profissional. É a memória viva de uma época em que o rádio unia famílias ao redor de um aparelho, aproximava distâncias e se transformava em parte da própria vida das pessoas.
Sessenta anos depois daquele convite feito a um jovem de 16 anos, Rui Tomazelli continua sendo mais do que um radialista. É um patrimônio afetivo da comunicação regional, uma voz que ajudou a narrar a história do Alto Uruguai e que permanece ecoando na memória de gerações.
Além de radialista, Tomazelli também atuou na érea de educação, na assessoria de imprensa da Câmara Municipal de Vereadores por quase 30 anos, entre outras atividades na área da comunicação.
Legenda 01: Rui Tomazelli:60 anos na comunicação
Legenda 01: Um histórico pleno de trabalho e dedicação ao radialismo
Fotos: Arquivo pessoal