A 27ª Feira do Livro revelou, em sua essência mais pura, uma daquelas noites que permanecem na memória coletiva de uma cidade. Na terça-feira, 5 de maio, o evento transformou-se em palco de encontros, histórias e afetos, reunindo autores erechinenses e regionais em torno da palavra escrita. A conversa, conduzida com a sensibilidade e competência da jornalista Cristiane Rhoden, apresentou ao público uma série de lançamentos, mostrando a vitalidade literária do Alto Uruguai.
As obras
Entre as obras lançadas estavam: Contudo (Sublimações), de Guilherme Mossini Mendel; Crônicas de um Frentista de Erechim, de José Adelar Ody; Pensamentos ao Vento, de Adriel Ferreira; Gestão Pública: Saberes e Experiências no Alto Uruguai Gaúcho, com coautoria de Clovis Schmitt Souza, da UFFS; e O Menino por Baixo das Mangueiras, de Kaylani Dal Medico.
Revisitando a história do jornalismo
Mas, entre tantas obras significativas, era impossível não voltar o olhar para “Crônicas de um Frentista de Erechim”, de José Adelar Ody. Falar de Ody é também revisitar uma parte importante da própria trajetória no jornalismo. Durante muitos anos trabalhamos lado a lado, e tive o privilégio raro de ser, em inúmeras ocasiões, o primeiro leitor de suas crônicas, enquanto editava o jornal. Ody foi mestre antes mesmo de perceber-se assim. A gratidão por tê-lo tido ao meu lado durante tantos anos e ter aprendido tanto, é dessas que atravessam o tempo.
Fio do bigode e respeito mútuo
Formávamos uma dupla complementar. Ele, correspondente do Correio do Povo e da Rádio Guaíba por décadas; eu, responsável pela reportagem fotográfica das matérias que ele produzia. A parceria era construída entre nós dois, sustentada muito mais pela confiança do que pelos vínculos formais com os veículos que representávamos. Havia um entendimento silencioso, quase antigo, firmado no fio do bigode e no respeito mútuo. Foi com o dinheiro desses trabalhos que consegui comprar um Tempra (justamente o carro que pertencia a ele). Um símbolo discreto de uma amizade construída nas estradas, nas pautas e nas urgências do jornalismo.
Cada imagem carregava quilômetros percorridos
Ao longo daqueles anos, publicamos mais de 400 fotografias no Correio do Povo (fruto de mais de 400 matérias), muitas delas estampando quase cinquenta capas. Algo que quem conhece a rotina de um jornal estadual sabe o quanto é difícil alcançar. Cada imagem carregava quilômetros percorridos, madrugadas geladas, improvisos e a obstinação de contar histórias.
Cobertura que jamais sai da memória
Algumas coberturas jamais saíram da memória. A primeira, sem dúvida, foi a tragédia do ônibus escolar, em 22 de setembro de 2004, que deixou 17 mortos. Um trabalho duro, doloroso, mas necessário. O jornalismo, em certos momentos, exige do profissional a capacidade de registrar o sofrimento sem deixar de lado a humanidade.
A morte do Papa e os parentes no Alto Uruguai
A morte de João Paulo II, em abril de 2005, também marcou nosso percurso. No Alto Uruguai, o papa polonês, Karol Wojtyla, possuía laços familiares, e partimos interior adentro em busca dessas histórias. Lembro da chuva incessante, das estradas de chão transformadas em barro e da dificuldade para localizar as casas sem GPS, sem aplicativos, sem facilidades digitais. Encontrar um endereço era quase um ato de resistência. Ainda assim, sempre dávamos um jeito.
As crateras da BR 153
Na Copa do Mundo de 2014, quando o Beira-Rio, em Porto Alegre, recebeu partidas do Mundial, as redações das capitais reservavam amplo espaço para a cobertura esportiva. Mas naquele mesmo período, a região enfrentava chuvas intensas, e a BR-153, próxima à ponte do Rio Uruguai, entre Erechim e Concórdia, começava a ceder. Seguimos para o local. Enquanto Ody observava à distância, entrei nas crateras para fotografar o tamanho da destruição. Ele gritava, preocupado: “Sai daí que vai cair!”. No dia seguinte, mesmo com a Copa dominando os noticiários, uma fotografia da rodovia destruída ocupava quase meia página da capa do Correio do Povo. O factual venceu o espetáculo.
Getúlio Vargas no Alto Uruguai
Houve também uma viagem até Viadutos, num fim de semana, para entrevistar uma senhora de mais de 80 anos. Seu pai havia sido responsável pela estação ferroviária da cidade, e ela guardava consigo uma lembrança extraordinária. Ainda menina, entregou um ramalhete de flores ao então presidente Getúlio Vargas durante sua passagem pela região, entre as décadas de 1940 e 1950. Refizemos a cena. Ela segurava novamente o ramalhete. Sobre o peito, o quepe do pai, parte do antigo uniforme ferroviário. O olhar perdido no horizonte, como quem buscava o passado. A emoção daquele instante transformou-se em uma grande reportagem no Correio do Povo.
Crise hídrica no Alto Uruguai
Foram inúmeras pautas. A crise da Cotrel e os sucessivos escândalos da época renderam coberturas intensas. Outro tema recorrente era a crise hídrica que atingiu Erechim entre os anos 2000 e 2010, culminando em três racionamentos. Quase diariamente visitávamos a barragem da Corsan para acompanhar o nível da água, que parecia baixar diante dos nossos olhos. Em uma dessas estiagens prolongadas, avistamos, sobre as pedras que dividiam a barragem em dois grandes lagos, camisetas escolares pertencentes às crianças que haviam perdido a vida no acidente de 2004.
Inverso rigoroso e a geada
O inverno gaúcho também encontrava espaço garantido nas páginas do jornal. As geadas transformavam-se em personagens das capas, e foi nesse período que comecei a desbravar o interior em busca das paisagens frias do Alto Uruguai.
Jornalismo exige fôlego, disposição, honestidade
Poderia passar horas reunindo lembranças dessa parceria. Mas talvez o mais importante seja compreender que o jornalismo exige fôlego, disposição, honestidade e, acima de tudo, espírito coletivo. É um ofício construído na confiança de quem trabalha junto, ajudando-se mutuamente para alcançar o melhor resultado possível. Além das reportagens do Correio do Povo, havia ainda a cobertura política local: eu com o Pente Fino, ele com a coluna Painel. Só esse capítulo renderia muitas outras histórias.
Extraordinária capacidade de interpretação humana
Retornando ao livro Crônicas de um Frentista de Erechim, a obra reúne 23 textos publicados ao longo da carreira de Ody e revela sua extraordinária capacidade de interpretação humana. O autor reconstrói ambientes, memórias e personagens com tamanha riqueza de detalhes que o leitor não apenas acompanha as histórias. Ele passa a habitá-las.
O humor, marca de sua escrita
O humor é uma das marcas mais fortes de sua escrita, especialmente nos textos intitulados Frentista da Administração, divididos em vários capítulos. Durante a noite de lançamento, Ody relembrou os medos e inseguranças que viveu ao ingressar na primeira turma de Administração de Erechim, no final dos anos 1970. Trabalhava como frentista em um posto de gasolina ao lado do Banco do Brasil e foi incentivado a prestar vestibular.
O primeiro dia de aula
Passou. No primeiro dia de aula, contudo, sentiu-se deslocado: carros luxuosos chegavam ao campus enquanto ele carregava o cheiro de gasolina e óleo nas roupas. Tímido, sentou-se no fundo da sala, quase tentando desaparecer. Quando o professor decidiu apresentar cada aluno, o desespero aumentou. Além da timidez, havia a gagueira. Ainda assim, enfrentou o momento, falou, foi aplaudido e acolhido pela turma. Entre os colegas estava o ex-prefeito de Erechim, Eloi João Zanella, que compareceu à noite de autógrafos para homenageá-lo. Ao longo dos anos, construíram uma amizade sólida, sustentada pelo respeito mútuo.
Ensinamentos que o tempo não apaga
Ody não concluiu o curso de Administração. Permaneceu por cerca de três semestres. Felizmente, o destino o desviou para o jornalismo. Erechim ganhou um de seus maiores cronistas e jornalistas, e eu tive a oportunidade rara de aprender com ele e carregar comigo ensinamentos que o tempo não apaga.
Observa, captura e entrega o essencial
Em um release elaborado pela jornalista Marielise Ferreira, colega de profissão e da Academia Erechinense de Letras, a trajetória de Ody é resumida com precisão: “Seja como o jovem que trabalhou na linha de frente de um posto de gasolina, seja como o profissional que dedicou décadas a ‘abastecer’ a comunidade com informação de qualidade, Adelar sempre foi um frentista: aquele que trabalha na linha de frente, observa, captura e entrega o essencial”.
Prefácio e revisão linguística
O livro recebe prefácio do médico e escritor, Alcides Mandelli Stumpf, Patrono da 27ª Feira do Livro e a revisão linguística ficou sob responsabilidade da doutora em Linguística Helena Confortin, que destaca a habilidade do autor em transformar o cotidiano em literatura.