A China é um país que está passando por mudanças tão rápidas que um bairro de uma grande cidade é transformado em um mês. Esse é o ritmo de um país que cresce mais de 10% ao ano. A língua, sem dúvida, é a principal barreira na China. Sentimos um isolamento muito grande. Todos falam e não entendemos nada. É aquela sensação de vazio ao pegar o metrô, ver as estações passando pela janela e não conseguir nem lê-las para tentar começar a se localizar. O idioma é tão difícil que, mesmo com a dedicação de duas horas de aula por dia e outras três em casa, não há a segurança necessária para uma adaptação. Decorar as palavras não basta, pois as diferenças de pronúncia são sutis.
A velha Pequim: por trás das paredes das antigas vielas de Pequim está um impressionante jeito de viver. Aqui, os vizinhos compartilham muito mais do que uma fofoca. Um pouco mais ao sul da Praça do Céu – centro de Pequim –, próximo à Cidade Proibida, a vida se arrasta no mesmo ritmo de séculos atrás. Não há relógios públicos e as pessoas parecem não se importar muito com horário. Mas esse modo de viver, à medida que a China se desenvolve, está ficando no passado. Seus bairros passam a ter menos bicicletas, mais campos de golfe, boates e spas, e conversas dominadas pela especulação imobiliária.
A casa chinesa tradicional: os princípios básicos da construção chinesa foram estabelecidos na época de Confúcio. Uma casa deveria ser “redonda no alto e quadrada embaixo”, para simbolizar o céu e a terra. Continuidade e harmonia são as marcas registradas da arquitetura chinesa tradicional. Através dos séculos, príncipes e camponeses têm construído suas moradias em uma base de quatro quadrados, técnica adotada desde a época de Confúcio. Os exemplos mais requintados desse estilo estão na Cidade Proibida, em Pequim.
Exemplos dessa arquitetura na Cidade Proibida: o Pavilhão da Harmonia é uma câmara quadrada de 256 metros quadrados, com três pavimentos, na qual o imperador examinava sementes selecionadas para a safra seguinte. O Templo do Céu e da Terra é uma construção circular no centro de um pátio quadrado.
Casas de ricos e de pobres: as casas dos ricos eram construídas com pátios em alas, e a planta básica era sempre a mesma. A parte central, onde ficavam os melhores cômodos, era reservada para o dono da casa e continha um santuário dedicado aos seus ancestrais. As alas destinavam-se às mulheres e aos membros mais jovens da família. A cozinha ficava no porão, onde viviam os servos. As casas mais pobres ficavam em torno de um pátio comunitário. Eram barulhentas e superlotadas. No pátio, aproveitavam o espaço para secar o arroz.
Quem foi Confúcio: sua mensagem tinha a família como modelo da sociedade. Viveu de 551 a 479 a.C. Nasceu pobre na província de Shandong. Trabalhou na corte de um príncipe local e, com 22 anos, começou a desenvolver sua teoria de uma sociedade justa. O conceito de família era usado como modelo: a harmonia social era o resultado de ações virtuosas. O súdito devia obediência ao governante da mesma forma que o filho devia obediência ao pai, a esposa ao marido e o jovem ao mais velho. Pregava que o imperador tinha um “mandato do céu” para governar, mas podia perdê-lo caso governasse de forma injusta. Os desastres naturais eram um sinal do céu de que o mandato tinha sido cancelado. Confúcio tornou-se um professor itinerante para divulgar sua doutrina. Seus pensamentos foram escritos após sua morte por um de seus discípulos.
A medicina chinesa: a medicina tradicional chinesa trata o paciente, e não os sintomas. O corpo humano é considerado uma entidade única, com caminhos que ligam os diferentes órgãos – coração, pulmões, fígado e os demais. A saúde é regulada por um sistema de interações entre os cinco elementos da natureza: terra, fogo, água, madeira e metal. Os médicos chineses determinam o estado de saúde de um paciente observando 12 pulsações, seis em cada pulso. A acupuntura é usada desde o século I d.C. Existe um manual à venda para o uso da mesma.
Importância da corrente sanguínea: os médicos chineses já conheciam a circulação do sangue no século III. Sabiam que a corrente do sangue participa de um intercâmbio constante com a circulação do ar nos pulmões, levado a efeito em canais tão pequenos que não podem ser vistos a olho nu. Um conjunto de remédios constitui o arsenal da medicina chinesa. As paredes de uma farmácia tradicional são cobertas de centenas de pequenas gavetas cheias de pós e extratos de origem animal, vegetal e mineral.
As farmácias tradicionais: são mais ou menos 16.000 remédios usados tradicionalmente. Entre eles, o mais comum é um pó de cavalo-marinho, indicado para tratar a gota. Outro muito procurado é a tinta que o polvo solta, misturada com vinagre, para doenças do coração. Mas, nas ruas, muitas vendedoras exibem saquinhos com ervas medicinais para a venda e indicam o uso.
Conclusão: em farmácias tradicionais, sempre há o atendimento de médico dessa medicina antiga. Alguns companheiros de viagem buscaram consultas. Foram, não muito acreditando, para conhecer o sistema: dores nas costas, resfriados e outros mais. Inicialmente, o profissional faz perguntas sobre a alimentação, pois existe a ligação entre certas doenças e tipos de alimentos. Então, recomenda-se evitar aqueles que não fazem bem. Nossos amigos saíram com potes, pós, pomadas e xaropes, inclusive para trazer na volta da viagem. O atendimento é realizado em inglês e até em espanhol. Foram muitas risadas, e não comentaram tudo o que aconteceu. Mas presumimos que buscaram somente conhecimento e tratamento para alguns males que não quiseram contar. Foram momentos divertidos. Nesses consultórios, existem estatuetas de marfim, masculinas e femininas, nuas, para mostrar o lugar onde sentem problemas. Sem se sentirem envergonhados, passam a mão no local, pois o marfim não provoca risos.