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Opinião

Biometano

Gás vilão do efeito estufa, mas agora produzirá energia limpa

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Roberto Ferron
Por Engº. Florestal Roberto M. Ferron – Consultor Florestal/Ambiental
Foto Roberto M. Ferron

Todos sabemos que os dejetos de suínos eram um grande problema para os suinocultores, seja pela poluição da água, seja pelo mau cheiro exalado dos chiqueirões e pela proliferação de moscas. Antigamente, havia um ditado no meio rural que dizia: “onde tem cheiro de porco, tem dinheiro”, ou seja, ser produtor de suínos era sinal de boa renda familiar.

Lá na década de 90, a pesquisa desenvolveu a técnica de captar todos os dejetos em esterqueiras, tanques cavados ao lado dos chiqueirões para receber a urina e os dejetos dos suínos. E, se cobertos por uma lona, poderiam captar o gás produzido pela fermentação aeróbica, cujas bactérias “comem” o esterco e o transformam em água enriquecida de nutrientes, que poderiam ser usados como adubo líquido nas lavouras, além de gerar gases. É nesse processo de fermentação que se forma o “gás metano”. Na época, não havia uso, por isso era queimado indefinidamente. Posteriormente, poderia ser queimado gerando calor para aquecer os leitões recém-nascidos nas creches, ou para gerar energia elétrica para a rede local. Ainda, esse produto aquoso poderia ser prensado, retirando-se a matéria orgânica para virar adubo sólido, e até usado na mistura de silagem para alimentação do gado confinado.

O que é o gás metano? Metano (CH4) é um gás incolor, inodoro e altamente inflamável. É o hidrocarboneto mais simples que existe: 1 átomo de carbono ligado a 4 de hidrogênio. Mas sua composição química é uma das mais fáceis de ser quebrada.

Sua origem: a) fontes naturais: pântanos, cupinzeiros e derretimento de permafrost; b) energia: vazamentos na produção de petróleo, gás e carvão. Essa fonte no Brasil representa 10%; c) agropecuária: vem da fermentação no estômago do gado — o famoso “arroto do boi” — e de outros ruminantes, além dos dejetos de animais e do ser humano. Representa 72% das emissões brasileiras dos gases de efeito estufa (GEE); d) resíduos: decomposição de lixo orgânico em aterros sem coleta de gás. Representa 15%.

Suas principais características são: a) energético: é o principal componente do gás natural. Queima liberando energia, CO2 e água; b) efeito estufa: é 28 vezes mais potente que o CO2 para aquecer o planeta em um período de 100 anos. No curto prazo de 20 anos, é 84 vezes mais potente; c) vida curta: permanece na atmosfera cerca de 12 anos, contra séculos do CO2.

Mesmo representando só 17% dos gases de efeito estufa (GEE), o metano é responsável por cerca de 30% do aquecimento global atual desde a era pré-industrial, justamente por ser tão potente.

Somos o 5º maior emissor de metano do mundo. Entre 1990 e 2019, as emissões subiram 51%. Em 2050, mesmo com neutralidade climática, o governo já admite que ainda vamos emitir metano por causa da agropecuária. A ideia é compensar com a remoção de CO2 por florestas e energia limpa (eixos.com.br). Reduzir o metano é considerado a forma mais rápida de frear o aquecimento no curto prazo, porque ele desaparece da atmosfera em 12 anos (globalmethanepledge.org). Quer que eu detalhe o que está sendo feito na prática em cada setor?

O Brasil se comprometeu a reduzir a emissão do gás metano, aderindo, em 2021, ao pacto lançado na COP26 junto com 158 países. A meta é coletiva: reduzir as emissões globais de metano em pelo menos 30% até 2030, em relação aos níveis de 2020. É uma meta global, não uma obrigação individual de cada país (globalmethanepledge.org).

No Plano Clima, uma estratégia nacional lançada em março de 2026, é o principal instrumento do Brasil até 2035. Para o metano, o foco está em três planos setoriais: a) Agricultura e pecuária: 72% do metano brasileiro vem daqui. As ações incluem dieta melhor para o gado, manejo de dejetos e integração lavoura-pecuária-floresta; b) Resíduos: 15% das emissões. Meta de ampliar a captura de biogás em aterros e tratar esgoto; c) Energia: 10% das emissões. Reduzir vazamentos na cadeia de petróleo e gás (gov.br/eixos.com.br).

Recentemente, o tal gás metano, até então um passivo ambiental, virou “o salvador da pátria”. O Brasil aproveita apenas 1,5% do seu potencial de biometano — um mercado estimado em R$ 180 bilhões que permanece praticamente inexplorado, mesmo após 15 anos da Política Nacional de Resíduos Sólidos.

As novas tecnologias de geração de energia crescem exponencialmente, e surgem usinas de biometano em Santa Catarina, no maior criador de suínos do Brasil.

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