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Opinião

Feira do Livro: guardiã do legado cultural em tempos de incerteza

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf - Médico - Membro da Academia Erechinense de Letras - Presidente da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do RS - Patrono da Feira do Livro de Erechim 2026
Foto Alcides Mandelli Stumpf

Vivemos um momento histórico preocupante: pela primeira vez, observa-se uma geração que apresenta involução nos índices de QI em relação à anterior. É uma realidade consolidada que precisa ser entendida e enfrentada de forma adequada e assertiva. Não temos tempo a perder.

Outra situação típica, e não menos importante, consiste no avanço tecnológico, especialmente na comunicação de massa – que carrega consigo imenso poder criativo, mas também destrutivo, indubitavelmente.

Questiono se a humanidade e, particularmente, nós, brasileiros, estamos mental e culturalmente prontos a assimilar tão complexas mudanças, que envolvem todo um estilo de vida, valores e princípios morais e éticos.

Se fatiarmos as últimas décadas, tomando como referência a produção cultural do país, que está no seu inverno (para não dizer inferno), o que eu afirmei acima se consolida como uma pedra – aliás, uma imensa pedra no meio do caminho, como diria Carlos Drumond de Andrade, quase intransponível.

Rapidamente, convido à uma breve viagem no tempo:

Décadas de 1950 e 1960, a primavera, o florescimento artístico e cultural que teve expoentes mundialmente reconhecidos como Tom Jobim ou Oscar Niemayer. Ainda havia Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Antônio Maria, Stanislaw Ponte Preta e tantos outros, inclusive gaúchos como Erico Verissimo, Mario Quintana e Jayme Caetano Braun, assim como Barbosa Lessa e Aparício Silva Rillo, que garantem a cultura caseira.

Sei que cometerei injustiças com outros tantos expoentes, mas falo somente a título de ilustração.

Os anos de 1970 e 1980 foram preciosos. Se as décadas anteriores foram a primavera, estas foram o verão, com direito a Tropicália, Jovem Guarda e outros movimentos que se firmam à medida que o tempo passa. Clarice Lispector, Rubem Fonseca, João Hubaldo Ribeiro, Caio Fernando Abreu, Chico Buarque e Caetano Veloso (antes de virarem funcionários públicos) representam bem esse período quente e praiano. Josué Guimarães, Moacyr Scliar, Carlos Nejar, Sérgio da Costa Franco e Sérgio Faraco deram seus ares por aqui.   

O outono chega entre as décadas de 1990 e 2000. Paradoxalmente chega também a Lei Rouanet, que, por vezes, flutua ao sabor de ideologias. A literatura intimista e urbana se distingue. Ferreira Gullar, Milton Hatoum, Adélia Prado, Lygia Fagundes Telles, Otto Lara Resende e Carlos Heitor Cony sustentam a beleza já triste da estação. Lia Luft, Martha Medeiros e Letícia Wierzchowski nos mantem no cenário nacional, sem contar o consagrado Luis Fernando Verissimo e Jeferson Tenório. Independentemente de década ou estação, Vasco Prado, Iberê Camargo e Xico Stockinger nos mostram ao mundo.

Finalmente, chega o gélido inverno das últimas duas décadas culturais, com as redes sociais e linhas editoriais periféricas ocupando o espaço vital. Diversidade a qualquer preço ou custo. A politização, o consumismo e a falta de foco deixaram o inverno mais nebuloso. Mas ainda há luz no nosso Rio Grande, e ela vem de mentes brilhantes como Nilson Luiz May, Gilberto Schwartsmann, Juremir Machado da Silva, Rafael Bán Jacobsen, Paulo Brasil Amaral, Antonio Hohlfeldt, Beatriz Araujo, maestro Manfredo Schmiedt, Salus Loch, Gunter Axt, Ana Maria de Souza, amigos queridos, além de Sergius Gonzaga, José Francisco Alves, Luiz Gonzaga, Luciano Alabarse e Telmo Flor. A imprensa de Erechim também merece destaque, a partir de nomes como José Adelar Ody, Heitor Donida e Sandra Machado, Maria Lúcia Carraro Smaniotto, Ricardo Carraro, Luiz Badalotti, Egídio Lazzarotto, Hélio Corrêa e o incansável comendador Rodrigo Finardi, dentre outros.

Porém, frente às grandes ameaças que surgem periodicamente, faz-se necessário momentos de arejamento espiritual que são as Feiras do Livro. Ocasiões especiais de desenvolvimento pessoal e coletivo, dão oportunidades à formação de lideranças práticas, capazes de inspirar voluntários por ideais elevados, desenvolver habilidades de relacionamento e articular entregas concretas para a sociedade. São experiências que reverberam positivamente também na vida familiar e profissional – hoje postas de lado deliberadamente.

A 27ª Feira do Livro de Erechim é um ambiente neutro onde não há lugar para beligerância ideológica ou litigâncias vãs que não levam a lugar algum, e aceita o desafio - nesses tempos bicudos - de resgatar uma educação de qualidade e uma cultura voltada ao crescimento integral do indivíduo e, por decorrência, da sociedade.

Para isso, contamos com pessoas idealistas, como o prefeito Paulo Polis, o secretário de Cultura, Esporte e Economia Criativa, Wallace Soares, Débora Azevedo, e a turma aguerrida e talentosa da Academia Erechinense de Letras, sob liderança da presidente Zenir Bearzi. Todos dispostos a enfrentar resistências e trabalhar pela construção de um amanhã mais próspero, sem distinção de raça, cor ou credo.

Ainda, ao encerrar, deixo meu louvor e reverência ao maestro Shubert, ao professor Pedro Paulo Mandelli e aos escritores Gladstone Osório Mársico, Paulo Fernandes, Vera Sass e Nelly Cantele, verdadeiros baluartes da sabedoria de nossa terra. Também agradeço a todos os apoiadores da Feira e, especialmente, os patronos que me antecederam em tão nobre missão. Espero estar à altura de dar continuidade a obra interminável de deixar um mundo melhor para nossos filhos e netos.

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