Quando se fala em bullying, a atenção costuma se concentrar na vítima, mas, do ponto de vista psicológico, essa dinâmica é mais ampla e atinge todos os envolvidos. Quem sofre as agressões tende a desenvolver sentimentos de medo, vergonha e desvalorização, o que impacta diretamente a autoestima e o bem-estar emocional, enquanto quem pratica o bullying muitas vezes também revela sofrimento psíquico, dificuldades em lidar com emoções e limites ou uma necessidade intensa de afirmação. Já aqueles que assistem às situações de violência vivenciam medo, culpa e insegurança, sentindo-se divididos entre ajudar e se proteger. “É uma dinâmica que adoece o ambiente como um todo”, afirma Ane Chies Variani, psicóloga e especialista em Psicologia Escolar, Orientação Educacional e Dinâmicas das Relações Conjugais e Familiares.
Marcas psicológicas ao longo da vida
As consequências do bullying vão além do momento em que ocorrem as agressões e podem deixar marcas profundas em crianças e adolescentes, como baixa autoestima, ansiedade, tristeza persistente e dificuldade de confiar nas pessoas. “Quando essas vivências não são acolhidas e elaboradas, elas podem, sim, acompanhar a pessoa na vida adulta, refletindo em insegurança, medo de exposição, dificuldades nos relacionamentos e sofrimento emocional”, explica Ane, ressaltando a importância de reconhecer os sinais e intervir precocemente.
O que leva alguém a praticar bullying
A prática do bullying está frequentemente associada a questões emocionais não resolvidas, inseguranças e à necessidade de exercer poder sobre o outro, além da reprodução de comportamentos agressivos aprendidos em casa ou no meio social. Em muitos casos, o agressor expressa frustrações que não consegue elaborar de forma saudável. Segundo a psicóloga, “a falta de empatia e de limites claros também pode contribuir para esse comportamento”, deixando claro que se deve olhar para além da atitude e compreender suas origens.
O impacto em quem presencia
Testemunhar situações de bullying sem intervir também gera efeitos emocionais que precisam ser vistos, afinal, as crianças e adolescentes que ocupam esse lugar costumam sentir medo de se tornarem alvos, além de culpa e angústia por não agir diante da violência. “O silêncio, na maioria das vezes, não é indiferença, mas insegurança. Com o tempo, isso pode gerar naturalização da violência ou dificuldade de se posicionar diante de situações injustas”, pontua a especialista.
Estratégias superficiais não resolvem o problema
Abordagens que se limitam a exigir que a vítima seja mais forte ou que apostam apenas na punição imediata do agressor tendem a ser insuficientes, pois não atingem a raiz do problema. Ao responsabilizar a vítima por sua própria proteção, pode-se reforçar sentimentos de culpa e abandono, enquanto a punição isolada não promove reflexão nem mudança de comportamento. “Psicologicamente, romper o ciclo do bullying exige escuta, responsabilização consciente, desenvolvimento da empatia e envolvimento de todos os atores”, enfatiza Ane.
Sinais de alerta e a importância da escuta
Nem sempre crianças e adolescentes conseguem verbalizar o que estão vivendo, mas mudanças de comportamento podem indicar sofrimento, como isolamento, irritação, queda no rendimento escolar, queixas físicas frequentes, alterações no sono ou resistência em ir à escola. Diante desses sinais, é fundamental que os pais ofereçam uma escuta acolhedora, sem julgamentos, além de dialogar com a escola e buscar apoio profissional quando necessário. Para a psicóloga, “o mais importante é garantir que a criança se sinta acolhida e protegida”.
Quando o filho é o agressor
Nos casos em que a criança ou adolescente pratica bullying, a orientação para os pais é ir além da punição e buscar compreender o que está por trás do comportamento. “Estabelecer limites é necessário, mas sempre aliado ao diálogo, à reflexão e ao estímulo à empatia”, explica Ane, que aponta que o apoio da escola e de profissionais especializados pode ser determinante nesse processo.
O papel dos adultos
Pais e escolas desempenham um papel central na prevenção e no combate ao bullying, sendo responsáveis por construir ambientes seguros, baseados no diálogo, no acolhimento e em regras claras de convivência. “Quando os adultos se posicionam de forma responsável, escutam, orientam e educam emocionalmente, ajudam a interromper ciclos de violência e a preservar a saúde mental ao longo da vida”, conclui Ane.