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Opinião

De espelhos e almas

No momento em que encerra suas confabulações literário-filosóficas, o Sapateiro recebe uma mensagem no aparelho celular. Era hora de se encontrar com os doces pensamentos de seu grande acontecimento familiar, verdadeiro lumiar de sua essência, motivo de sorriso para as almas ‘externa’ e ‘interna’

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Arquivo BD

  Absorto em doces pensamentos, em razão da iminência de grande acontecimento familiar, o Sapateiro de Bruxelas observava vagamente a discussão de algumas questões nada transcendentais que seus amigos de café traziam à mesa virtual no fim daquela tarde escaldante de verão.

O calor e a preguiça o deixaram quase dormente. Até que lá pelas tantas uma frase solta captou sua atenção:

- Acho que, afinal, Machado de Assis estava certo quando disse, em seu conto ‘O Espelho’, que o homem tem duas almas, a interna e a externa.

A menção a Joaquim Maria Machado de Assis, um dos mais brilhantes escritores em língua portuguesa e o maior nome da literatura brasileira, soou como um convite para que o bruxelense despertasse e entrasse na roda de conversa.

Resgatou, do fundo do baú de sua memória, os sentimentos que a primeira leitura do referido conto, em meados da década de 1970, lhe trouxe.

Lembrou-se de Jacobina, personagem principal da narrativa, um homem rico de meia idade que descreve episódio marcante de sua juventude, o qual definiu sua personalidade adulta. Lembrou-se, ainda, da mensagem machadiana que resplandecia da historieta. E, sem pestanejar, tomou a palavra, dirigindo-se aos colegas de café.

- Ah, o Bruxo do Cosme Velho sempre é atual e relevante... Neste conto, Jacobina, em total solidão, defronta-se com um espelho proveniente da Família Real Portuguesa. Sozinho, passou dias angustiantes por ter perdido a ‘alma exterior’, sem ter ninguém com quem interagir. Sua própria imagem refletida no imenso espelho estava corrompida e difusa, assim como o juízo que fazia de si mesmo na ausência dos outros, que outrora o cortejavam. Vejam, em completo abandono, o alferes necessitava vestir sua farda militar para que sua imagem surgisse com nitidez de detalhes e contornos, recuperando, assim, a ‘alma exterior’, que preenchia a ‘alma interior’.

Depois de apreciar o silêncio dos sete colegas da mesa virtual, o artesão continuou:

- Me permito observar também, indo na carona do amigo que abriu a discussão, que concordo com o raciocínio machadiano. Afinal, se a ‘alma interior’ olha de dentro para fora, a ‘alma exterior’ faz o contrário; e olha de fora para dentro, representada, eventualmente, por uma pessoa, ou um grupo de amigos como vocês, ou por situações que transmitam vida à primeira. Vale aí o som do mar, o canto das óperas, nossos valores ou paixões.

A mesa concordou entre o muxoxo cordial e a curiosidade do tema.

Animado, prossegue o bruxelense:

- Contudo, estimados companheiros, precisamos estar atentos. E, aqui, me reporto ao que Machado nos ensina. Afinal, nossa “alma exterior” nada mais é do que uma casca ou couraça que as pessoas criam para sobreviver na luta social. Alguns, no entanto, se prendem a elas de tal modo que acabam eliminando a ‘alma interior’, o seu verdadeiro ‘eu’. É o que se deu com o narrador, Jacobina, que em determinado momento do conto não se encontra refletido no espelho justamente por estar vazio. O pretensioso alferes, se transformou apenas numa farda. Pior, quando não a veste, descobre-se um nada. Um zero à esquerda. Assim perguntou, quantos de nós talvez estejamos nesta situação? Elegantemente apresentável em nossa couraça, mas ocos por dentro?

Depois de breve intervalo, o Sapateiro retoma a palavra, um tanto enigmático:

- Pensemos nisso até o próximo encontro. E, por via das dúvidas, nesse período, ao receberem a vacina anti Covid-19 que espanta o mal de nossos corpos, procuremos vacinar também ambas as almas – permitindo que elas possam conviver em harmonia. Até breve, queridos amigos.

No momento em que encerra suas confabulações literário-filosóficas, o Sapateiro recebe uma mensagem no aparelho celular. Era hora de se encontrar com os doces pensamentos de seu grande acontecimento familiar, verdadeiro lumiar de sua essência, motivo de sorriso para as almas ‘externa’ e ‘interna’.

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